Nicinha, uma das matriarcas da umbanda na Rocinha, falece aos 63 anos

Ao lado de Jurema, sua companheira de vida por 46 anos, Nicinha fundou a Casa de Oxum em 1982, na Rocinha.
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A Rocinha se despede de uma de suas grandes matriarcas espirituais e culturais. Maria Eunice Dias Lacerda, a Nicinha, faleceu aos 63 anos, deixando um legado de luta, fé e amor inabalável. Ela enfrentava a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença neurodegenerativa que compromete a mobilidade, respiração e funções motoras, exigindo cuidados intensivos e contínuos. A causa da morte não foi divulgada.

Nascida em 1961, foi criada na Rocinha desde a infância, vinda de uma família numerosa que migrou de Petrópolis. Sua história está entrelaçada com as raízes do território. A família de Nicinha foi uma das primeiras a ocupar as terras onde hoje se encontra a favela da Rocinha na primeira metade do século 20.

Nicinha, sempre sorridente, em sua casa na Rocinha. Foto: Acervo/Carolina Sá

Filha de empregada doméstica e criada pela mãe e pela avó, seu chamado espiritual veio ainda na infância, mas só se firmou na maturidade, quando assumiu o compromisso como mãe de santo e referência religiosa na favela.

Foi ao lado de Jurema, sua companheira de vida por 46 anos, que Nicinha construiu uma história que atravessou fronteiras. Antes de conhecer Jurema, Nicinha teve 2 filhos com o primeiro namorado. Ela também tem um terceiro filho adotado com 10 dias de vida.

O casal – Nicinha e Jurema – teve sua trajetória retratada no documentário Meu Amor: Seis Histórias de Amor Verdadeiro, da Netflix, que mostrou ao mundo a força de sua relação, marcada pelo respeito, companheirismo e pelo sonho compartilhado de um espaço de acolhimento e fé, expandindo esse espaço de fé e acolhimento que viria a se tornar a Casa da Oxum, inaugurado em 1982, um importante bastião da cultura afro-brasileira na Rocinha.

“Quando conheci a Jurema, eu já era iniciada na umbanda, e ela também. Comecei muito cedo com o negócio de orixá, acontecia comigo sozinha em casa. E minha mãe, mesmo sendo do espiritismo, não gostava de ver a gente, ainda bem novo, naquilo. Ela não aceitava muito, mas acabou tendo de concordar. Tomei a obrigação (ritual em que, dentro da religião, se firma o compromisso entre o médium e a entidade), mas depois saí, me afastei, caí na farra. Só com 40 anos fechei a obrigação na umbanda e peguei a bandeja sendo uma ialorixá (mãe de santo).”, contou Nicinha em depoimento a Luã Marinatto.

O episódio também revelou a beleza, os desafios e a cumplicidade da relação entre duas mulheres negras, lésbicas e praticantes da umbanda. A série imortalizou a trajetória das duas, mostrando que, apesar das adversidades, o amor e a parceria sempre falaram mais alto.

O terreiro, para ela, era mais do que um espaço religioso: era um refúgio, uma escola de vida, um local de resistência para a população negra, pobre e periférica. Atualmente o terreiro é dirigido pela Iyá Michelle d’Oyá, filha das fundadoras.

Ela também carregava em sua caminhada as marcas da luta por justiça. É irmã de Amarildo Dias de Souza, pedreiro desaparecido em 2013, em um dos casos mais emblemáticos de violência policial no Brasil. Sua dor virou resistência, fortalecendo sua voz em defesa da memória e dos direitos da favela.

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) foi o último desafio de Nicinha. A doença limitou seus movimentos, mas nunca sua luz. Em meio às dificuldades de mobilidade impostas pelo território, sua família e amigos se mobilizaram para garantir os cuidados que ela precisava por meio de uma vaquinha. Até o último instante, foi cercada pelo carinho daqueles que a amavam.

Nicinha parte deixando filhos, netos, irmãos e uma legião de admiradores que carregam sua história no peito. Seu legado segue vivo na Casa da Oxum, na Rocinha, e em todos aqueles que aprenderam com ela que fé e resistência andam de mãos dadas.

Axé, Nicinha. Sua luz não se apaga.

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