“Servir a Rocinha é uma conquista. Sou nascida e criada aqui, em 1955 minha família veio de Portugal direto para cá, na Rua 2, onde moro até hoje com meus filhos, em frente a barbearia e o comércio que foi de meu pai. Quem não conhece o Srº Aníbal da Rua 2?” Relata. 

Maria Helena nasceu e desde então vive e trabalha na Rocinha e pela Rocinha, formou-se em enfermagem pela UNIRIO e já nos anos 80 circulava pelas ruas, becos e vielas com a vacinação. A unidade Albert Sabin surgiu somente em Março de 82 “assim que abriu eu já estava aqui e permaneço até hoje. A luta naquele tempo não é tão diferente da luta de hoje enfrentada por tantos projetos sociais”. 

Sempre à frente de alguns projetos, ao qual nunca negou voz, Helena é sinônimo de luta até hoje. Abre as portas da unidade para todo tipo de ação comunitária, não só na assistência de doentes, também foi pioneira em diversas causas. Falando de algumas lutas em que participou diz que muito se orgulha quando olha no Instituto Pereira Passos que decretou no ano de  93 que a Rocinha passaria a ser um bairro, além de conseguir mais 3 unidades de saúde depois das obras do PAC pela comunidade. 

“Hoje quando vejo aquela Rua Nova, ou Rua 4 como todo mundo conhece, vejo a luta que foi para conseguir abrir aquilo para passagem de bens de serviço. Ali o índice de tuberculose era alto, conseguimos amenizar com muita luta, mas hoje devido ao crescimento da comunidade já têm outras áreas sendo afetadas por essa doença”. Descreveu ao lembrar de tudo que já conquistou. 

Após tantos anos de trabalho e estando em uma unidade com uma importância ímpar para a comunidade, Maria Helena não pensa em parar, pelo contrário, novos projetos lhe dão mais forças para seguir adiante. No início deste ano ela se tornou Coordenadora da Secretaria de Saúde da Zona Sul e explicou como tem sido seu trabalho: “Não existe tirar de letra, mas a gente vai aprendendo e fazendo junto, porque a gente não pode ser só. Tive uma base excelente na Rocinha e na Secretaria de Saúde para que hoje eu consiga chegar a ser coordenadora. Eu digo com honestidade, não me aposentei, já era pra ter aposentado há mais de 10 anos, lógico que passa pela cabeça. Mas o convite veio e não foi sofrido, pegar a unidade favela e a unidade asfalto não me deu frio na barriga. A relação de força foi outra, colocar todos em uma mesa e explicar que nós não somos diferentes foi a primeira coisa.”

Poucas pessoas falam com orgulho e prazer da sua localidade, Maria Helena é uma dessas pessoas que adora enaltecer a favela por onde passa, mesmo sabendo de alguns problemas que são comuns em qualquer bairro. “Vê hoje essa unidade de saúde se manter em pé e integra depois de tantas dificuldades que passamos, acompanhar a obra que me deu tanta dor de cabeça, muito me orgulha. E sei que ainda tenho muito a fazer por essa comunidade”. Reforça. 

Sendo sinônimo de trabalho ela nos relata o que faz no seu tempo livre: “Meu descanso é ficar na minha casa, antes da pandemia todo domingo eu subia até a Rua 1 e saia descendo o morro todo. Gosto de mar, gosto dos meus cachorros, queria poder andar mais na rua, ir na feira, mas na pandemia tenho a consciência que não pode. Então fico lendo jornal, livros científicos e artigos, mas chega final de semana gosto mesmo é de colocar sandália, bermuda e camiseta, não tem mais liberdade do que essa”. Brinca a diretora. 

Relembrando o passado Maria Helena se emociona ao falar das conquistas profissionais e pessoais, revendo tudo que já presenciou na favela que a viu crescer e cresceu junto com a favela também. Hoje continua a mesma Maria de quando começou, batendo perna quando pode e indo direto ao povo,na luta por saúde, saneamento básico e atendendo a quem solicita por sua ajuda. 

“Eu acho que nós, os grupos comunitários, nunca fomos sozinhos apesar de sempre sermos poucos. Estou depositando o legado agora na conta dos mais jovens, temos tantos grupos bons hoje que muito me alegra. Eu defendo muita atenção primária na área da saúde, defendo o que é público, e agora coordenando a zona sul, que demanda muito e me cansa às vezes. Existe toda uma preparação para chegar até o momento de aplicar a vacina e receber o público, não pode ter falhas”. 

E finaliza dizendo: “Estudo muito sobre a Covid, já deveria me aposentar, mas não quero parar. Uma vez em um curso me lembro que quando perguntaram ao um menino o que era saúde para ele, que respondeu prontamente que “saúde é poder calçar sapato” aquilo me impactou. Se nós estamos na luta por melhoria e qualidade de vida no local em que moramos, estamos reivindicando um direito. Depois de anos de profissão continuo nas ruas, não mudei. Lutei muito por várias coisas, melhorou, mas ainda falta e por isso vou continuar lutando.” 

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