Morador da Rocinha, Marcelo Mendes, de 53 anos, é gari e recordista brasileiro de embaixadinhas de cabeça desde 2002. Ele ficou seis horas e dois minutos (6h02) e deu 40 mil toques na bola batendo a bola somente com a cabeça, afirmou em entrevista ao Fala Roça, na quadra poliesportiva da Rua 1, na Rocinha.

Marcelo conta que recebe carinho e reconhecimento diário da comunidade, mas se sente ignorado pela mídia brasileira. Na esperança de entrar para o Guinness Book, o gari afirma que guarda o e-mail da organização há 17 anos. Ele ainda aguarda uma reportagem de uma emissora de televisão, que ainda não se concretizou, para ter o recorde oficializado como marca no livro. O Guinness Book exige uma série de evidências – que podem variar dependendo da categoria de recorde – para reconhecer uma marca, dentre elas, uma filmagem

Além desses dois recordes, Marcelo também fez 190 embaixadinhas com um coco na praia de São Conrado, onde atualmente ele dá aulas particulares de futevôlei. Marcelo conta que o recorde com a cabeça só foi reconhecido pelo RankBrasil, o livro de recordes brasileiros, dois anos depois de ser conquistado. 

“Eu fui reconhecido em 2004. Sabe por que eu só fui reconhecido em 2004? Porque antes eu não tinha o dinheiro para pagar para a inscrição neste site” – desabafa apontando para a logo do portal “RankBrasil” na camiseta que veste diariamente.

Ele explica que para entrar no ranking teve que pagar de R$180, à época, o valor era a metade de um salário mínimo de R$360. Em 2004, Marcelo trabalhava ainda na praia e enfrentava dificuldades e problemas no trabalho de barraqueiro devido a roubos de produtos, motivo que o fez largar à praia. 

As dificuldades financeiras só acabaram em 2014, quando Marcelo passou no concurso para gari da Comlurb. Junto com outros 16 mil candidatos, ele participou de testes físicos e psicotécnicos. Do total de inscritos, somente 100 ingressaram na empresa. Desde então, o recordista de embaixadinhas vive do trabalho de gari, além das eventuais aulas particulares de futevôlei.

Marcelo Mendes mora sozinho desde os 14 anos e lembra que já passou por muitas dificuldades financeiras. Mesmo assim, ele nunca perdeu a alegria e o carisma de um verdadeiro artista. 

Ele conta que certa vez recebeu uma ajuda de custos de um amigo durante três meses para fazer o máximo de embaixadinhas que pudesse na praia. Marcelo treinava para participar de um desafio no Esporte Espetacular e no Domingão do Faustão, conforme havia sido combinado com o amigo, que tinha contatos na emissora. 

“Eu desempregado, trabalhando na praia, ele me ofereceu um dinheiro para almoçar e jantar. Foi simplesmente só por esse detalhe (que aceitei participar). Quem é que não quer?” – se emociona Marcelo. Hoje, os principais patrocinadores do morador são: a farmácia Drogaria da Rocinha, localizada na Gávea, e o restaurante Bosque da Praça, situado na Praça Seca, na zona oeste. O sonho dele agora é concluir a obra  da casa própria no alto do morro da Rocinha.

O atleta das embaixadinhas com a cabeça afirma que, a fama de craque, nem sempre é benéfica. Marcelo já foi impedido de participar de campeonatos de “altinha” e de embaixadinhas por ser extremamente qualificado e tirar “a graça da competição”. 

Segundo ele, para organização do campeonato, colocar o “Deus das embaixadinhas” do Rio para jogar com outros competidores é como Pelé disputar com qualquer outro jogador. “Eu cheguei lá no posto 3, da Barra, para participar e os caras não deixaram. 

‘Se botar esse cara, a bola não vai cair’. Eles me davam R$100 para ser juiz. Hoje, se eu for lá, talvez, eles deixem eu participar”, conta rindo.

*Conteúdo produzido pelos estudantes Guilherme Frota e Bernardo Brigagão através da parceria do Fala Roça com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio

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