O fluxo migratório de nordestinos para a Rocinha se tornou um fenômeno das décadas de ocupação da favela nas décadas de 1960 e 1970. Mas, o que pouca gente sabe, é que essa migração segue acontecendo até hoje. Toda semana, às sexta-feiras, chega um ônibus do Ceará, trazendo famílias de diversos estados do Nordeste direto para a Rocinha, em busca de melhores condições de vida. 

Essa migração imprimiu uma identidade na favela carioca entrelaçada com a cultura e o jeito de ser do povo do Nordeste do Brasil, celebrado todos os anos, em 8 de outubro, no Dia do Nordestino. Na Rocinha, o rolé carioca dos moradores da favela da Rocinha, tem gosto de sal de mar, mas também de Acará com baião de dois, oxente!

“A gente percebeu que a Rocinha tem vários lugares de Fortaleza dentro dela”, conta Lucylianne Bertuleza, de 30 anos, que chegou na favela, em maio deste ano, com o marido e os seis filhos. 

Lucy, como gosta de ser chamada, veio morar na Rocinha motivada pelos vídeos produzidos pelo influenciador Bruno Thierry. Ele mostra o dia a dia do Morro e parte das facilidades de se morar na Rocinha pelo Instagram. O perfil dele Rockycria tem mais de 441 mil seguidores. 

Ela e a família saíram de Messejana, bairro de Fortaleza, percorrendo de ônibus 2.594,3 km, até o Rio de Janeiro, com objetivo específico de morar na Rocinha. “Eu pensei no meu futuro e no das crianças, aqui tem mais facilidades de emprego, escola, bolsas e cursos grátis, lá também tem, mas aqui tem mais”, conta Lucy.

E completa: “Saímos de lá para cá, com a fé depositada em Deus mesmo. Só viemos com a roupa e a coragem”. O desabafo não é exagero. Para conseguir se estabelecer na Rocinha, ela precisou buscar ajuda na associação de moradores e, posteriormente, conseguiu doações de móveis e eletrodomésticos com influenciadores do morro e outros moradores locais. 

Segundo William de Oliveira, 51 anos, colaborador da Associação de Moradores da Rocinha, as razões para a contínua migração de famílias dos estados do nordeste para o Morro, ainda são as mesmas dos primeiros migrantes das décadas de 60 e 70: melhores condições de vida e oportunidades de educação para os filhos.

“Uns vêm motivados pelos parentes, que vieram antes, outros pelas oportunidades de emprego e estudo. Desde que eles [nordestinos aprenderam] essa logística, que os familiares descobriram de ir e vir, [de preparar o terreno para outro familiar chegar], que dá certo para alguns, isso acontece e não vai parar de acontecer”, explica William. 

Em geral, as pessoas nordestinas recém-chegadas na Rocinha contam com uma rede de apoio formada por familiares, amigos próximos e da associação de moradores. São pessoas que se reconhecem um na história do outro. Porém, este acolhimento, não é suficiente para suprir todas as necessidades de quem busca morar na comunidade. 

Principal rua da Rocinha é uma das portas de entradas dos migrantes nordestinos. Fotos: Karen Fontoura

“Até agora não consegui vaga na escola para as crianças. A lotação é demais aqui na Rocinha [nas escolas e creches] e, não tem como eu arrumar fora [do Morro], até pela quantidade de crianças. É muito gasto, não dá”, relata Lucy. 

Mãe de seis filhos, a nova moradora da Rocinha, já foi na defensoria pública e nas coordenadorias regionais de educação do Estado (CRE). Mesmo assim, não conseguiu uma solução. Com as crianças fora da escola, Lucy, tem medo de perder o auxílio do Bolsa Família, que recebe do governo federal. 

“Meu auxílio é que está mantendo a gente. Se [ele] for cortado, a gente desaba. Hoje, o que eu mais almejo é a vaga na escola pras crianças”, desabafa. Uma das principais regras do programa é, justamente, a obrigatoriedade de que todas as crianças da família estejam matriculadas e frequentando a escola.

Rota BR-116: vantagens e desvantagens

A viagem do Nordeste do Brasil até a Rocinha dura em média de dois a três dias percorrendo a BR-116. A linha sai de Fortaleza, mas faz paradas nos estados de Pernambuco, Bahia e até de Minas Gerais. Ao chegar no Rio de Janeiro, o ônibus também faz uma parada na favela do Rio das Pedras, localizada na zona oeste.

A empresa de ônibus Expresso Guanabara fazia apenas eventuais viagens para a Rocinha, mas, em novembro de 2017, criou uma rota fixa semanal para atender a demanda de pessoas da região do nordeste em direção às duas favelas, segundo a assessoria. 

Além da Expresso Guanabara, outras duas empresas de ônibus fazem também o trajeto que liga os estados nordestinos até a Rocinha. Os passageiros são deixados na entrada da favela, semanalmente, segundo informações de comerciantes locais, que acompanham o desembarque dos passageiros.

“Durante a viagem, passa muita coisa na cabeça, será que vai dar certo? Será que eu vou conseguir um emprego? A gente pensa muito em desistir, porque não é uma vontade… Eu vim porque não queria viver na mesmice lá”, relata Hugo Araújo, de 20 anos. 

Ele veio do Ceará para a Rocinha, em 2022, para morar com o irmão que já tinha se estabelecido na favela no ano de 2021. Segundo Hugo, que trabalhava com agricultura na cidade natal, a busca por um emprego com melhor salário e oportunidades de crescimento foi a razão da decisão de migrar para a Rocinha. 

“Na cabeça da gente, que é nordestino, [a gente] vai esperar fazer os 18 anos e aí, vim para o Rio de Janeiro ou São Paulo”, conta.

Por estar bem localizada, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a favela da Rocinha traz uma facilidade maior para nordestinos recém-chegados arrumarem emprego. ”Quem vem de lá buscar um objetivo [de trabalho]. Eu cheguei [aqui] em uma semana e, na outra, eu já arrumei uma oportunidade [de emprego]”, revela Hugo.

Porém, morar na Rocinha também traz desvantagens. Uma das principais é a ausência de oferta de moradias a preços populares. Desde 2010, a favela não recebe obras de habitação do governo federal ou estadual. O valor do aluguel pode atrapalhar o objetivo de muitas pessoas fazerem o “pé de meia” na favela mais famosa do sudeste. 

“A Rocinha não é um lugar tão barato de se morar[…], um aluguel aqui é mil reais, dois mil”, explica William de Oliveira, de 51 anos, colaborador da Associação de Moradores. A grande procura por habitação no Morro, mantém o mercado imobiliário sempre aquecido, seja pelo valor do aluguel ou a tentativa de encontrar casas mais confortáveis. 

Com isso, há uma migração interna constante dentro da favela devido à valorização das casas.“A minha sorte foi quando eu cheguei a minha prima já estava aqui, com uma casa com tudo, mas quando eu quis buscar uma casa para mim, foi difícil de encontrar”, explica Francisco Cleiton de Araújo, de 22 anos. 

Morador da Roupa Suja desde 2021, o cearense conta que, a principal dificuldade, foi achar uma casa que o agradasse e coubesse no orçamento. “Agora mesmo eu estou procurando uma casa para me mudar, uma que seja melhorzinha e não acho. Quero uma casa com 2 quartos, com uma laje para queimar uma carne[fazer churrasco]. Aqui [na Rocinha] tem muita casa, mas tem muita gente. Então, achar algo já é difícil. Achar uma que você goste é mais ainda”, revela Francisco Cleiton.

Saudade e agito

“A Rocinha não para! O movimento que tem a noite, tem de dia. Quando eu cheguei aqui, na primeira noite, eu botei a cabeça pra fora da janela às 2 da manhã e pensei: ‘vem cá, essa gente não dorme não?”. O relato é de Lucylianne Bertuleza, de 30 anos, que conta como ficou impressionada com a agitação dos comércios 24 horas, o shopping e a “zoada do povo”, referindo-se ao barulho do vai e vem do principal transporte usado na favela: a moto. 

“Todo mundo quer conhecer a Rocinha. Aqui é uma realidade a parte do Brasil”, opina Hugo Araújo, o cearense que já mora há um ano na favela. Ele conta que no trabalho, localizado no Leblon, até os clientes de outros países pedem para conhecer a Rocinha, “porque já ouviram falar” e “tem vontade de curtir alguma atividade na favela”. 

Para muitos nordestinos morar na Rocinha, também traz um acolhimento devido à quantidade de comércio com produtos naturais do nordeste. As ruas da parte baixa da favela, como a Via Ápia, é uma das que comporta o Cabaré do Barata e o Esquina da Noite, que ficam lotados de gente, em sua maioria nordestinos, para curtir a noite no Morro. 

Mesmo assim, a saudade da terra bate. “Eu sinto saudades de casa. Minha família toda está lá. Uma das piores coisas é que, mesmo que você esteja indo buscar um futuro melhor, você tem que abdicar de muitos momentos com a família”, desabafa Francisco Cleiton, de 22 anos.

O jovem, que mora com o irmão, Hugo Araújo, ressalta que cultivou muitas amizades na Rocinha, que o faz se sentir acolhido. Mas, os novos amigos não conseguem fazer sumir a saudade de casa, o que o faz refletir sobre os caminhos percorridos pela família. 

A mãe dos irmãos, quando os dois ainda eram crianças, também migrou para o Rio de Janeiro, na tentativa de conquistar um futuro melhor. Porém, ela conta que a decisão a marcou muito. Principalmente, em decorrência do sentimento de culpa causado pelos julgamentos de pessoas próximas, por ela deixar os filhos tão pequenos com os avós no Ceará. 

“Às vezes, eu penso que minha mãe é muito guerreira, porque precisa ter muito colhão [coragem] para fazer o que ela fez! Eu acho que eu não conseguiria, mas hoje eu entendo que foi uma coisa necessária”, conta Francisco. 

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