Para quem vive com um salário mínimo, o bolso aperta antes do fim do mês chegar. Aluguel, vestuário e higiene são alguns dos gastos mensais necessários para sobreviver. No entanto, o alto custo de despesas essenciais acende um alerta quando o assunto é custo de vida na favela: como é viver com um salário mínimo na Rocinha?

O salário mínimo foi criado para que o trabalhador formal dê conta dos custos de vida durante um mês. Porém, a realidade é bem diferente: o dinheiro não é suficiente para pagar as contas, também não sobra para momentos de lazer.

A localização privilegiada da Rocinha faz com que gastos básicos tenham um valor mais alto. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), somente a alimentação das famílias cariocas consome mais da metade do valor do salário mínimo. Assim, viver com a quantia mensal de R$1.412, tornou-se um desafio. 

Iris da Silva, de 56 anos, mora na Rua 1 e vive com um salário mínimo. Por ter uma doença renal e metade de um pé amputado, ela recebe o Benefício de Prestação Continuada, pago pelo governo desde 2013. A aposentada mora com a filha de 21 anos em uma casa própria. Apesar de não precisar pagar aluguel, as contas com alimentação, telefone e internet consomem a renda da casa. 

“É difícil viver com um salário mínimo na Rocinha. Aqui as coisas são muito caras. Para alguém fazer algo pra você tem que pagar. Eu moro na parte alta. Faço mágica para conseguir sobreviver. Às vezes, eu peço ajuda a um e a outro porque falta. É muito difícil’, desabafa. 

Por três vezes na semana, Iris precisa se deslocar até a Clínica DaVita, em Botafogo, para fazer hemodiálise. O transporte é responsabilidade da clínica. No entanto, a alimentação não. Com a grana curta, não sobra um trocado para comer um lanche durante a consulta. 

“O dinheiro nunca dura o mês todo. Ainda mais fazendo esse tratamento em que preciso comprar remédios, que o governo não dá. Tenho que colocar comida dentro de casa. Aí é difícil. Quando minha filha era mais nova, eu tentei o Bolsa Família, mas disseram que o dinheiro que eu recebia dava para nós duas. Na época, o salário era de R$900”, lamenta Íris. Essa dura realidade não é um caso isolado. 

De acordo com um levantamento do Fala Roça feito em 2020, mulheres são mais afetadas pela falta de renda. 

O IBGE aponta que 76% das casas na Rocinha são chefiadas por mulheres com escolaridade até o ensino fundamental. A situação tende a piorar considerando que 50% da população da região metropolitana do Rio vive com menos de um salário mínimo, segundo o Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense

Ainda, segundo pesquisa do IBGE, 76% das casas na Rocinha são chefiadas por mulheres com escolaridade até o ensino fundamental. O cenário de escassez traz à tona a importância de ações sociais que buscam diminuir o impacto da pobreza nas favelas. É o caso do projeto Missão Rocinha, que em parceria com o Hotel Nacional, entrega marmitas para os moradores da Rocinha em três dias da semana. 

A iniciativa surgiu durante a pandemia para suprir as necessidades de pessoas com baixa renda. Grécia Valente, uma das diretoras do projeto, conta que famílias com mais de quatro filhos, idosos e adultos enfermos são os mais atendidos. “Não há critérios para receber a refeição. Sendo que o Instituto em si tem contatos de moradores que necessitam mais do que outros. Essa ação se torna imprescindível na vida deles. Na Rocinha, a metade ou mais da metade do salário mínimo é para se pagar o aluguel”, explica Grécia.

Teto caro

O influenciador digital Ruan Juliet frequentemente produz vídeos sobre a vida na Rocinha. Em um desses vídeos, destacou que o custo médio de aluguel na Rocinha é de R$850, o que representa mais da metade do valor de um salário mínimo, que é de R$706. O gasto com transporte para o trabalho ou estudo, utilizando ônibus e metrô de segunda a sexta-feira, representa um gasto médio mensal adicional de R$450.

Somando as duas despesas, o morador que vive apenas com um salário mínimo na Rocinha, tem que arcar com custo de vida de R$1.300. Sobrando apenas R$112 reais no bolso para pagar outros gastos, considerando o atual valor do salário mínimo.

“Uma das coisas mais difíceis da Rocinha é viver com um salário mínimo. Se você for alugar um quarto com banheiro custa R$600. Uma kitnet pode variar de R$600 a R$700. Uma casa com dois quartos, sala, cozinha, banheiro e laje custa cerca de R$1000, mas se for em um lugar bom pode chegar até R$1.500. Vamos supor que a pessoa ganha R$1.300. Daí paga R$600 de aluguel, R$100 da internet, mais TV a cabo. Dá R$770. Tem café da manhã, almoço, tem lugar que paga luz. Fica difícil”, explica Jorge Ricardo, agente imobiliário.

Levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e de Estudos Econômicos (Dieese) revelou que, o valor mínimo de salário no Brasil, deveria ser de R$6.575,30. Quase cinco vezes mais que o valor atual. 

Para Iris da Silva, o valor de R$5.000 é suficiente para sobreviver na Rocinha. “R$1.400 não dá não! Eu fui no mercado com R$80. Eu estou sem nada praticamente porque não deu. Eu fiquei assim: ‘não venho mais ao mercado?!’. Não dá! Preciso pagar passagem porque os motoristas de ônibus da Rocinha não aceitam minha gratuidade, preciso pagar alguém para me acompanhar nos lugares.  Aí você imagina como eu faço com esses R$1.412?”, questiona Iris. 

Segundo a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro, a capital carioca iniciou 2024 com a terceira cesta básica mais cara do Brasil. Em fevereiro, o custo era de R$791,77, superado apenas por Florianópolis R$800,31 e São Paulo R$793,39.

Ter onde morar, acessar transporte público e ter comida na mesa são direitos essenciais de todo cidadão. A desigualdade social é um fator limitante para ter uma vida financeira confortável. Manter um salário que impede o crescimento econômico é ignorar a vulnerabilidade social.

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