Todo fim de semana os bailes funks de favelas são tomados por pessoas fazendo passinhos, dançando e se divertindo. No meio da semana, a sala multiuso da Biblioteca Parque da Rocinha experimenta um pré-aquecimento de baile funk. Todas as quartas-feiras, de 20h às 22h, o espaço é ocupado pelo projeto Do Zero Ao Funk, criado pela moradora e estudante de educação física, Maria Eduarda Lima, a Duda Dance.

Maria Eduarda Lima, 20 anos, começou a dar aula em 2019 para estrangeiros que visitavam a Rocinha. O avanço da pandemia de covid-19 fez com que passasse a dar aula apenas para brasileiras. Antes de ganhar o direito de usar a sala na biblioteca pública do morro, o projeto funcionava em uma sala comercial. A primeira aula na nova sala recebeu cerca de 50 mulheres. Uma foi chamando a outra.

Rejeitando o rótulo de que as mulheres só vão lá para rebolar, a criadora do projeto afirma que, na real, o projeto tem a função de empoderamento feminino. Baseado no Fit Dance, dança que reúne vários ritmos, as participantes ganham autoconfiança com o próprio corpo. Outras jovens querem apenas aprender passos e curtir as festas. Há também aquelas que querem melhorar a vida sexual. 

“Não é sobre emagrecer. É sobre ter sua vida ativa. Quando você relaciona o funk ao fortalecimento do corpo, você está unindo duas coisas muito fortes. O movimento do funk com funcional, um intenso ritmo de movimentos.”, explica Duda Dance.

O crescimento da iniciativa vem do sucesso dos vídeos que publica nas redes sociais. Embora o público-alvo seja feminino, homens também podem participar. “O funk vai muito além do que apenas dançar em festas. Me aprofundei, estudei e vi que podia ajudar as mulheres. A troca de experiências que a gente tem com as mulheres, é um laço muito forte.”.

O funk é um dos vários instrumentos utilizados por ela. Na infância passou a participar do grupo Acorda Capoeira onde permanece há 9 anos. Foi bailarina e virou passista, sendo levada desde pequena pela mãe à quadra da Acadêmicos da Rocinha, em São Conrado. Em preparação para o carnaval de 2022, a passista também desfilará pela União da Ilha e São Clemente.

Machismo nas redes sociais

O perfil de Duda Dance atrai muitas mulheres interessadas no trabalho da jovem. Muitos homens mal intencionados enxergam o trabalho da dançarina como uma porta de entrada para abordagens indesejadas.

“No começo me abalava muito porque homens me ligavam, fazendo pornografia. Nós mulheres lidamos com isso desde que nascemos. Teve um momento que tranquei as mensagens, não recebi de ninguém e perdi muitos trabalhos porque não recebia as mensagens. Eu precisava de um tempo.”, lembra.

Todos esses aprendizados são repassados no projeto de funk. Ajudar as mulheres a se unirem é um dos principais objetivos entre elas. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisas DataFolha, intitulada de A Vitimização de Mulheres No Brasil, revela que cerca de 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no Brasil em 2020, sendo que a maior parte das agressões aconteceram dentro da casa da própria vítima.  

“A gente tem muito problema na cabeça. Nós somos mães, limpamos a casa, a gente trabalha, tem que estudar. Somos muito sozinhas. A maioria das mulheres no morro são mães solteiras, muito novas. Por isso, elas perdem o controle de como se cuidar. Às vezes a pessoa está em uma festa e as meninas estão se ofendendo por bobagem. Eu vou quebrando essa barreira com elas, mostrando que precisamos estar juntas e nos proteger”, conta Maria Eduarda. 

Apesar da aula ser apenas 2h por dia na semana, as conversas continuam em um grupo de WhatsApp para fortalecer uma a outra. De 20h às 21h ocorre a aula para crianças. Em seguida, de 21h às 22h é a vez das jovens, adultas e idosas. A inscrição pode ser feita no dia da aula ou pela página do projeto no Instagram.

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O documentário nesta quinta-feira (18/07), às 19h, na Biblioteca Parque da Rocinha