O mundo é cada vez mais hiperconectado. Seja para fazer compras, estudar ou trabalhar, a população vive cada dia mais imersa no online e o cenário na Rocinha não é diferente. Por isso, os provedores de internet locais na favela se multiplicaram desde a última década. 

Cerca de 30 serviços legalizados atendem milhares de moradores de diferentes localidades do morro. Uma delas é a Firma Telecom, empresa que surgiu há dois anos a partir da fusão de quatro provedores locais, que atuam no mercado dentro da Rocinha há mais de 14 anos.

“A internet se tornou algo essencial na vida das pessoas. A importância de ter provedores locais é enorme. Primeiro, por conta da dificuldade das grandes operadoras de entrar e operar, já que colocam mão de obra que não é da região. Nas empresas daqui, os moradores falam diretamente com os donos e os técnicos são moradores, o que gera emprego na comunidade e eles conhecem bem as localidades”, afirma Felipe Pessoa, um dos sócios da Firma Telecom. 

A empresa atualmente tem três lojas e atende mais de 500 residências na Rocinha. “Sempre estamos buscando a melhor conexão, o melhor serviço. Acontece que não havia venda de link para provedores de favelas antes. Agora, a capacidade de atendimento melhorou depois de podermos contratar”, explica Pessoa.

Para ser um provedor legal e conseguir comprar um link de qualidade é preciso se cadastrar na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Todo o processo de outorga gera um custo alto, pois precisa de plano de engenharia, projeto técnico e habilitação jurídica.

Unidade da Firma Telecom na entrada da Rua 2, parte alta da Rocinha. Foto: Arquivo/Firma

A oferta de concorrência na Rocinha foi possível devido ao crescimento do mercado e, sobretudo, à melhor estruturação da qualidade de internet dentro da Rocinha. A isenção de outorga para provedores que tenham até cinco mil clientes, também foi um fato essencial. 

“Após a isenção da outorga, houve mais inclusão digital. A ABRINT ajudou a trazer mais respeito para os provedores regionais, a descriminalizá-los, fazendo com que eles fossem ouvidos. Hoje, quem quiser abrir uma empresa provedora de internet não precisa mais pagar R$9 mil e correr atrás de tantas licenças”, destaca Euclydes Vieira, 63 anos, engenheiro e um dos fundadores da ABRINT.  

A conquista, que foi mediada pela Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (ABRINT), criada em 2009, conta hoje com 1.189 provedores associados pelo Brasil. “Agora, basta atender os requisitos de ter projeto de rede, autorização dos postes e preencher a documentação da Anatel”, ressalta Vieira. 

E conclui: “A Abrint ainda dá assessoria tributária e jurídica aos provedores associados. Nós entendemos que toda cadeia de produção depende, em algum momento, do uso da Internet. Basta ver a pandemia e a quantidade de negócios que foram criados pela e para a Internet”, opina.

Apoio social e garantia de sinal

A necessidade de atendimento de provedores locais nas favelas não é uma realidade apenas na Rocinha. Diversas favelas cariocas, periferias e pequenos municípios só conseguem acessar a rede e ficar conectado com esse suporte. Hoje, a maioria dos provedores já utilizam a fibra óptica, que traz uma melhor qualidade para atender os moradores e comércios locais. 

Mariana Barbosa, de 24 anos, moradora da Rocinha, conta que precisa da internet para estudar. Por isso, ela precisou trocar para um provedor local há seis anos. “Quando me mudei, na nova casa não chegava o sinal dessas empresas grandes. A internet é essencial na minha rotina, pois sou estudante universitária e sempre preciso estar conectada para fazer minhas atividades”.

Atualmente, ela também trabalha no modelo híbrido: remoto e presencial. “Precisa de acesso à Internet todos os dias para realizar meu trabalho. Em alguns momentos a conexão se torna instável, mas qualquer problema técnico é mais fácil de resolver devido à proximidade dos profissionais”, revela a estagiária de geografia.

Além do serviço prestado e da geração de emprego, a prestação de serviço dos provedores locais na Rocinha ainda dão suporte ao social. A Firma Telecom, por exemplo, ajuda ONGs da Rocinha como o projeto Favela In, que criou um pacote de isenção para os clientes da comunidade sem renda na pandemia. 

A empatia surge porque os donos em sua maioria são da região. “A prioridade é a comunidade, já que as grandes empresas não entram aqui. Nós também oferecemos uma parceria com a Universidade Brasileira, que tem cursos profissionalizantes EAD para todos os moradores da Rocinha e não apenas os nossos clientes. Fazemos todo mês um sorteio de itens domésticos para quem paga em dia”, destaca Luciano VJD, um dos sócios da empresa.

*Foto de capa: Renato Araujo

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