Sem salas de exibição, projetos comunitários da Rocinha fortalecem a arte local e conquistam festivais

Na maior favela do país, o desafio ainda é promover cultura. No entanto, diversos projetos de cinema mostram a importância da arte nas telas para os moradores

Na maior favela do país, o desafio ainda é promover cultura. No entanto, diversos projetos de cinema mostram a importância da arte nas telas para os moradores

O cinema brasileiro nunca esteve tão em alta, especialmente após as indicações e vitórias em premiações internacionais respeitadas historicamente. A repercussão que o Brasil tem ganhado no cenário cinematográfico motiva o povo a ir ao cinema e se interessar ainda mais pelo audiovisual do país. Porém, não são todos os bairros que contam com uma sala de cinema completa, e a Rocinha é um deles. No entanto, o audiovisual e a paixão pelo cinema têm ganhado cada vez mais força na favela.

A sala de cinema na Rocinha, o Cine Rocinha, funcionou até a década de 1960 e são poucos os registros públicos que comprovam o funcionamento do estabelecimento. Inaugurada em 1954, a sala foi criada pelo morador José da Silva Fernandes e ficava na Estrada da Gávea, n° 447, onde hoje funciona uma casa lotérica. 

O Cine Rocinha também recebeu show carnavalesco e homenagens a presidentes como Juscelino Kubitschek e João Goulart. O espaço ia além da exibição de filmes, marcando como um ponto histórico. Apesar de não haver mais uma sala de cinema no bairro, os moradores da Rocinha permanecem honrando o audiovisual por meio de projetos, como a Academia de Cinema da Rocinha (ACR).

Hoje, o audiovisual não se restringe apenas à preservação da memória, mas à ocupação ativa de novos espaços. Para o professor da PUC-Rio e colaborador da ACR, Luís Nachbin, o resgate histórico do Cine Rocinha é o primeiro passo para entender um movimento maior: o desmoronamento da “barreira invisível” entre o morro e o asfalto. “É fundamental que a gente tenha registros de outras épocas para saber, para aprender como o processo vem evoluindo ao longo do tempo. Porque, sem dúvida alguma, é um processo.”

Documentarista, mobile journalist, professor da PUC Rio.
Foto: Giovanna Del Corno

Recentemente, a favela ganhou uma sala mais preparada para a exibição de filmes, com poltronas de cinema cedidas pela Estação NET Rio, na Biblioteca Parque da Rocinha. A falta de um espaço público com acústica e equipamentos adequados limita o acesso e a difusão da produção local. Segundo Nachbin, essa carência força o improviso constante. “A ausência de um espaço coletivo para as pessoas apreciarem produtos audiovisuais variados, inclusive produtos relacionados à própria memória da comunidade, é algo que se debate muito.”

O  maior símbolo dessa potência criativa é o curta-metragem “Crônicas Marginais”. Primeira produção original da Academia de Cinema da Rocinha, o filme não apenas cruzou a fronteira da comunidade, mas atravessou o oceano para ser premiado no festival Cinéma de Femmes d’Amérique du Sud,  na França. Para Nachbin, o reconhecimento vai além do troféu. “Significa uma injeção absurda de autoconfiança, de reconhecimento da própria capacidade, da capacidade dos criadores de conteúdo dentro da favela”. 

Academia de Cinema da Rocinha, usa a própria favela como cenário e laboratório prático para os alunos.
Foto: Acervo ACR

Além da Academia de Cinema da Rocinha (ACR), o Tamo Junto Rocinha (TMJ), uma organização que surgiu da mobilização por melhorias na comunidade, também atua para fortalecer a identidade local por meio do audiovisual. Em parcerias com núcleos da PUC-Rio, o instituto promove formações que unem a técnica cinematográfica à preservação da memória local. Para o coordenador do projeto Davison Coutinho, o objetivo é garantir que a comunicação deixe de ser focada apenas na violência, e passe a refletir a potência criativa dos moradores.

O contato direto com o ambiente universitário funciona como uma ponte decisiva para os jovens da comunidade. Casos de sucesso, como o de Isis Oliveira, que participou do TMJ antes de ingressar no curso de cinema da PUC, ilustram como a iniciativa abre portas para oportunidades acadêmicas e profissionais.

Doutor em Design PUC-Rio, Coordenador NEAM PUC-Rio, Professor Design PUC-Rio, Co-fundador Instituto TMJ Rocinha e Presidente Associação de Funcionários da PUC-Rio.
Foto: Acervo Pessoal

Aos 27 anos e cursando o 5º período de Cinema, Isis Oliveira personifica a transição de quem antes via a favela apenas como cenário para quem hoje a enxerga como fonte de narrativas humanas e complexas.”Eu queria poder mostrar a realidade das pessoas com que eu convivia, queria mostrar como elas conseguiam ter fé dentro de uma realidade muito difícil. Isso é um pouco cinematográfico para mim.” 

Para a estudante, a grande mudança dos últimos anos é o combate ao “olhar fetichizado” de quem vem de fora. Ela defende que, embora o interesse externo pela estética da favela tenha trazido recursos, o verdadeiro salto qualitativo acontece quando o morador assume a câmera. “É mais importante que as pessoas dali de dentro consigam fazer isso. Que elas consigam comprar sua câmera e ir lá tirar as fotos das pessoas, tirar fotos do ambiente onde elas vivem. Trazer o olhar verdadeiro de quem mora ali, de quem passa por aquilo”. 

Isis Oliveira, estudante de cinema.
Foto: Acervo pessoal

Ao olhar para o futuro, o desejo da nova geração de realizadores da Rocinha é claro: profissionalização e autonomia. O sucesso de produções como “Crônicas Marginais” é visto como o “mínimo” para quem agora almeja voos ainda maiores. “A gente está se desenvolvendo para trazer projetos grandes, audiovisuais grandes. E é isso: alcançar novos voos agora, acho que vai dar certo”, finaliza. 

*Esta matéria é fruto da parceria entre a disciplina de Extensão em Jornalismo e Cidadania, do curso de Comunicação da PUC-Rio, ministrada pela professora Lilian Saback, e o jornal Fala Roça. 

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