
Rocinha e Baku: 11 mil km que os tornam próximos
A 13ª edição do Fórum Urbano Mundial, realizado pela ONU-Habitat entre os dias 17 a 22 de maio reuniu diversas lideranças em Baku na Ásia para dialogar as percepções das periferias.
Percepções de um favelado em um país asiático
Atravessar o mundo para chegar em Baku, no Azerbaijão, não é uma tarefa simples. Entre as 15 horas de voo do Rio de Janeiro a Dubai e o trecho complementar de três horas até a terra do petróleo e do gás natural, existe um preparo minucioso. O objetivo? Falar sobre as favelas cariocas e aprender com territórios similares ao redor do globo. Cairo, Quênia, Nairobi, Mumbai… Essa foi uma das marcas que a 13ª edição do Fórum Urbano Mundial, realizado pela ONU-Habitat entre os dias 17 a 22 de maio – e, acredito, em todos os moradores de favelas presentes.
Na “Terra do Fogo”- como é conhecido o Azerbaijão -, o choque cultural começou pelo idioma. O azerbaijano, língua de raiz turca, soa como um dialeto familiar, quase como se estivessémos ouvindo primos distantes. Percebi que poucos locais falam inglês, e essa pequena parcela da população aparenta pertencer a famílias privilegiadas.

Fotos: Divulgação
A capital exibe uma arquitetura moderna, com prédios espelhados que margeiam o Mar Cáspio, um dos lagos mais importantes do mundo. Por outro lado, em determinadas áreas, ainda resistem assinaturas da antiga União Soviética. São nesses espaços atemporais que dá para captar uma essência de favelização. Uma “favela” pensada para fazer parte da cidade e que é integrada na urbanização.
A semelhança com o contexto das nossas favelas saltou aos olhos na “Cidade Antiga” de Baku, região composta por morros e becos com residências coladas umas às outras. lugares como Grécia, Itália e Espanha, andarmos por becos não tão estreitos mas com casas praticamente coladas. Isso não é necessariamente um sinônimo de má qualidade ou impeditivo de planejamento urbano quando se trata destes tipos de obras, diferente do que é visto no Brasil.
Ao caminhar em grupo, ninguém esbarra no colega por falta de espaço, sente ausência de ventilação de ar natural ou dificuldade no direito de ir e vir por não ter um planejamento integrado pensado para a mobilidade. Este é o diferencial de um lugar planejado e construído para outro que se tornou denso e populoso sem as devidas assistências governamentais por meio das políticas públicas.

Assim como o Rio de Janeiro, Bakuintegra hoje o circuito das cidades globais.. Sua modernização e desenvolvimento econômico aconteceu fortemente após o rompimento com a antiga URSS em 1991. Sob a liderança de Heydar Aliyev, no poder a partir de 1993, o país para uma nova potência. Seu nome e rosto são vistos, falados e aclamados até hoje na cidade.
Estar no mapa de cidades globais temum efeito direto na população local: a preparação, voluntária ou não, para receber turistas. Vivemos isso no Rio em 2016, com as Olimpíadas, e não foi diferente em Baku durante a COP 29, em novembro de 2024. De acordo com alguns azerbaijanos, parte da população começou a prestar mais atenção nesses eventos globais e deixou de lado o modo reservado e introvertido de ser. Eles aprenderam a ser mais hospitaleiros, solicitos e bondosos os moradores da nossa comunidade.
Durante os dias intensos do fórum urbano, especialistas de diversos países trouxeram soluções ricas para serem implementadas. Vale destacar o trabalho feito pela organização Urbz, da Índia, que traz a participação urbana com design e governança. Assim como o Raízes em Movimento, representado por Alan Brum, que criou um planejamento urbano para o Complexo do Alemão e já captou recursos federais para a implementação.

Nesse intercâmbio, percebemos as semelhanças entre as cahamadas “moradiais informais” pelo mundo e as favelas brasileiras. O problema crônico da falta de saneamento básico, a carência de políticas públicas e a amaeaça constante de remoções governam a realidade de muitas dessas periferias. O que prevalece, contudo, é a resistência local por meio de medidas inovadoras.
Um fato curioso é que o termo “favela” já está consolidado em boa parte da América Latina e em outros continentes. Durante minhas apresentações, ficou evidente a transformação da narrativa: o lugar que as mídias tradicionais retratavam apenas pela violência é hoje reconhecido como um polo cultural, gastronômico e efervescente. “Olá, sou Rodirgo Silva, jornalista e cria da Rocinha, a maior favela do Brasil.”. As respostas, na maioria das vezes, eram calorosas. A favela se tornou pop. A favela é a solução. A favela é o futuro!





