Não é de hoje que movimentos sociais e/ou comunitários, criados por meio de organizações da sociedade civil, despertam o quê se entende como novo no debate de questões ligadas aos territórios – sobretudo os de favelas. Intelectuais orgânicos por sofrerem às custas da falta do Estado, são estes atores que reivindicam, por si próprios, o que pode a mudar, veja só, começando por um beco. E assim, impactar uma cidade, um estado e até mesmo o país. 

Com esse sentido, o Fala Roça, jornal comunitário que joga luz sobre o que acontece na cena da maior favela do país – a Rocinha – surge no campo como mola que impulsiona as conversas, com um objetivo único: o do diálogo, e por ele, conseguir, através da escuta, solucionar problemas históricos vivenciados no infinito particular que toca mais de 100 mil moradores. 

O papo é reto e direto: ‘’Desenrola Rocinha”, uma agenda mensal que tem como sede a redação do jornal, colocando a pensar os assuntos que permeiam cada esquina do cotidiano do local, com a participação de moradores e especialistas nas temáticas escolhidas. O objetivo do percurso é, além de esclarecer dúvidas, apresentar e elaborar, coletivamente, aquilo que poderia reduzir os problemas trazidos para a roda, criando com isso um panorama ligado à Agenda 2030, que congrega os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o mundo. 

Estive no mais recente encontro e sai inspirado. Como provocador, Leandro Santos, ativista ambiental e liderança que reúne trabalhos na Rocinha e no Parque da Cidade, pôde instigar os presentes sobre aquele que seria o tema crucial para os moradores: o direito e acesso ao saneamento, atravessando todos os demais para se ter uma vida digna. 

Projeto criado pelo Fala Roça reúne moradores, organizações comunitárias e representantes públicos para debater e propor soluções para o território. Foto: Mariana Estevan

‘’Qual é o valor da ação do favelado no coletivo?’’ Foi só uma das interrogações que pulsou entre os presentes, que fizeram um reconhecimento sintomático sobre o quê pensam do assunto, e não só: o que veem e fazem. 

Durante quase duas horas e meia do encontro, a discussão sobre a produção de resíduos e os impactos, sobretudo, na limpeza e saúde. De acordo com a Comlurb, a Rocinha produz 230 toneladas de resíduos sólidos por dia, como o próprio Fala Roça mostrou em uma publicação feita em 2021. Com a materialização do que se vê acumular na porta de casa, tratar sobre as questões, entendendo quais e os porquês desse ser um tema tão fundamental para o território. E assim, projetar atitudes feitas de maneira simples, mas com sérias chances de, concretas, transformarem uma geração. 

Por ter residido por 24 anos no local, não posso dissociar minha trajetória sem falar da ligação com o que antes chamávamos de “lixo”. A falta de assistência básica para compreender a logística local, além da densidade da população, e os inúmeros problemas de saúde que vi causados pelo mal cheiro e até mesmo o contato. Não é incomum, por exemplo num dia de chuva, temer sobre o que poderia acontecer caso o temporal não parasse. ‘’Será que o lixo vai atingir minha casa?’’. E no caminho de saída ou mesmo retorno, ter que esquivar do monte que toma os becos e ruas da favela. 

Os encontros e a ação efetiva do Fala Roça despontam reverenciando grupos que já iluminaram processos dentro da comunidade, como o Rocinha Sem Fronteiras e a Rocinha Resiste. Mas agora com a envergadura de quem avalia e trabalha pela ótica da comunicação social, possibilitando novos enredos e estruturas ao que se vê como desafio. O lance é mobilizar e engajar. 

Apostar e participar desse momento é significativo, prestes a começar 2023, ano em que a Rocinha completa 30 anos com a nomeação de bairro. E projetá-la no futuro. Que Rocinha queremos a partir de agora? Em que pesa a participação e movimentação do Estado? 

No tocante ao Estado, fica o pesar pelo não comparecimento de nenhum agente público em cargo. Uma pena. Mas não para os moradores, e sim para aqueles em que destinamos a responsabilidade de promover a criação de políticas públicas. 

Sigo animado e esperançoso pelos próximos encontros. E você deveria vir também. 

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