A transição de gênero dentro da favela ainda é um assunto pouco abordado. Nascida e criada na Rocinha, a atriz e escritora Maria Lucas tem 33 anos. Mulher trans, ela criou uma vaquinha virtual para financiar sua cirurgia de próteses de silicone. A jovem iniciou o processo de transição quando ainda estava na faculdade, em 2017. 

A vaquinha para Maria conseguir o implante de silicone vai durar 60 dias, oferecendo recompensas diversas, tais como: entrada grátis em restaurantes, fotos exclusivas, ensaios fotográficos, quadros com fotos de artistas cariocas, assim como cópias do livro de Maria. 

A ideia foi construída também como o desenvolvimento de um futuro livro de ensaios da autora, que contará com um capítulo no qual ela explicitará as possíveis transformações corporais realizadas nos corpos de travestis e mulheres trans brasileiras. Parte deste processo se dará com ensaios de fotos com a artista pós-operada, que servirão não somente para as recompensas, mas também para ilustrar o livro.

Maria Lucas criou vaquinha para poder financiar a cirurgia de prótese mamária. Foto: Betina Polaroid

“É uma barra muito pesada ser travesti e estar viva (e atuante) nesse país que, já liderava o ranking sendo o que mais mata pessoas trans em todo o mundo: o foco maior é em travestis, sobretudo pretas e em situações de rua, prostituição e alta vulnerabilidade social. As oportunidades de estudo e empregabilidade são escassas, ainda mais para uma artista independente, favelada e filha de migrantes nordestinos.” diz ela cuja expectativa de vida de travestis e mulheres trans no Brasil é de 35 anos.

Ela é a primeira pessoa trans a ganhar o concurso de textos ensaísticos da Revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, tendo publicado “Próteses de Proteção”, em 2020. Também é autora do livro “Esse Sangue Não é de Menstruação, mas de Transfobia”, lançado em 2021. 

A vivência trans fez com que contribuísse na escrita de um capítulo do livro “Esses Seres Vivemos”, publicado pelo MAM e resultado de sua bolsa de pesquisa como pesquisadora entre 2020 e 2021. 

Maria Lucas é Mestra em Teoria e Crítica de Artes pela Escola de Comunicação da UFRJ e graduada em Teatro pelo departamento de Letras da PUC-RJ, no qual realizou intercâmbio acadêmico em História da Arte, na Espanha, e em Cinema em Bogotá, na Colômbia.

Vivência na favela

Maria Lucas passou sua infância e adolescência percorrendo os becos da Rocinha e fazendo parte de projetos sociais. “Eu vivi bons momentos no morro, aprendi muita coisa, mas também sofri muito porque as pessoas ainda não estão preparadas para lhe dar uma com as outras e quando se é mulher trans no morro é bem mais difícil, embora eu só tenha compreensão disso anos depois”, relata a artista em entrevista ao Fala Roça. 

Acompanhada há 2 anos pelo projeto Corte Trans, da Fiocruz, que atende a população trans e travestis do Rio de Janeiro, Maria explica que a situação no Sistema Único de Saúde ainda é precária. “É uma tristeza ter que esperar até 10 anos para realizar esse tipo de procedimento, embora alguns procedimentos sejam feitos de forma gratuita, há vários espaços públicos que não possuem preparo para lidar com corpos como o meu.”.

Dificuldades no SUS

Pessoas trans podem desejar realizar modificações em sua aparência e em seu corpo, tanto para sentir-se bem com sua imagem quanto para serem reconhecidas socialmente com o gênero com o qual se identificam. 

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), existem muitas possibilidades para que estas transformações corporais sejam alcançadas, algumas transitórias e outras permanentes, que incluem próteses, uso de cintas, posturas, uso de substâncias tópicas, intervenções tradicionalmente consideradas estéticas, hormonização ou mesmo cirurgias. Embora algumas cirurgias só sejam disponibilizadas por serviços privados, diversos procedimentos cirúrgicos são oferecidos pelo SUS em serviços regionais que estão preparados para realizá-las.

O Ministério da Saúde ainda não possui um protocolo específico para a realização de hormonização no Brasil, embora alguns municípios e alguns serviços tenham desenvolvido protocolos próprios com base em pesquisas e documentos internacionais. Muitos protocolos internacionais foram desenvolvidos para o atendimento de pessoas trans por profissionais da Atenção Primária da Saúde, aponta uma pesquisa da SBMFC.

“Somos afastadas destes espaços que nos tratam de maneira desumana: é sobre procurar o atendimento com encaminhamento para a cirurgia genital e ser tratada no masculino ou olhada com olhares de deboche por todos apenas ao entrar na recepção de uma UPA ou Clínica da Família. Por outro lado, realizar estes procedimentos em clínicas particulares está muito além do que uma mulher trans pode alcançar com trabalhos informais, já que a formalidade está fechada para a grande maioria de nós. Uma prótese mamária, por exemplo, pode chegar a R$15 mil e a cirurgia genital, a R$45 mil”, conclui Maria Lucas.

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