“Pelo amor de Deus, [olha] a Dioneia como está gente. Na altura do 374, está tudo desabando aqui. Estou com medo de ficar sem casa. Olha isso aqui, a ribanceira que desceu do Portão Vermelho.”, afirma uma moradora angustiada ao filmar um deslizamento de terra e árvores na localidade Dioneia, na parte alta da Rocinha, por volta de 23h de domingo (27/8). Moradores afirmam que as sirenes da Defesa Civil não foram acionadas na noite chuvosa.

No dia seguinte, agentes da Comlurb atuaram na limpeza e corte de algumas árvores. Após nova vistoria, a Defesa Civil interditou o imóvel n.º 374 citado pela moradora no vídeo.

O incidente lança luz sobre a importância de considerar os efeitos das mudanças climáticas na política pública de prevenção, criada há uma década. Implantado pela Defesa Civil Municipal em 2011, o Sistema de Alerta e Alarme, conhecido como “sirenes” visava evitar tragédias decorrentes de deslizamentos de encostas em períodos de chuva intensa. 

Segundo a Defesa Civil Municipal, o protocolo estabelecido para o acionamento das sirenes não foi atingido em nenhum momento durante a chuva que atingiu a cidade desde o último sábado (26/09). 

O sistema prevê o acionamento das sirenes a partir de 150 milímetros de chuva em 24 horas, o que não chegou nem perto de ocorrer, garante o órgão em um comunicado. Especificamente na Rocinha, o maior acumulado foi 104,6mm/24h, às 22h15 de domingo (27/08).

Por meio de nota, a Defesa Civil Municipal destacou que o protocolo foi baseado em rígidos estudos geotécnicos. “Vale lembrar que a Defesa Civil faz revisões sempre que necessário nos protocolos, uma vez que é de suma importância manter a credibilidade das sirenes.”. A nota reafirma, ainda, que os moradores devem deixar as áreas de risco e seguir imediatamente para os pontos de apoio.

A necessidade de revisão do protocolo atual é evidente. Além do acumulado de chuva, fatores como o tipo de solo, a estrutura precária das construções sem orientações urbanísticas e a constância de dias chuvosos seguidos, que encharcam o solo, contribuem para o risco de deslizamentos.

Cerca de 1.500 residências estão em áreas de alto risco, conforme dados da Prefeitura do Rio. No topo de algumas moradias, no comércio, em clubes e até em um centro de saúde, nove estações sonoras são responsáveis por alertar os moradores  da Rocinha sobre os riscos de potenciais eventos climáticos.

Eventos climáticos extremos desse tipo estão ficando mais frequentes com as mudanças climáticas

Uma pesquisa do Centro de Operações da Prefeitura do Rio, divulgada este ano, indicou que temporais estão mais frequentes na cidade. O estudo identificou um aumento de chuvas muito fortes na cidade entre os meses de dezembro e abril, em apenas uma hora, isso nos últimos 25 anos. 

Para a meteorologista do Alerta Rio, Juliana Hermsdorff, os dados levantados podem estar relacionados com os efeitos do aquecimento global.

“Estudos climáticos de grandes centros mundiais de meteorologia já comprovam o aumento da frequência de eventos climáticos extremos em diversas regiões do mundo. Os dados históricos do Alerta Rio apontam também nesta direção, com um aumento da frequência de chuvas muito fortes em uma hora, entre dezembro e abril, na cidade do Rio de Janeiro nos últimos 25 anos”, explica a meteorologista.

O levantamento apresenta, também, um recorte com dados de fevereiro. Em 2023, este mês registrou um acumulado de 222,4 milímetros de precipitação no Rio de Janeiro. É o quarto maior volume desde o início da série histórica. Fica abaixo apenas de 1998, 2019 e 2020, quando fevereiro contabilizou o recorde de 319,8 milímetros.

Investimentos públicos podem mitigar desastres naturais

A experiência em Petrópolis, onde a Defesa Civil local implementou pluviômetros caseiros em favelas, reforça a importância de envolver a população no monitoramento das chuvas. A iniciativa incentiva a cultura de prevenção, permitindo que os moradores acompanhem os níveis de chuva e estejam preparados para identificar possíveis riscos de deslizamentos ou alagamentos. 

A utilização de pluviômetros caseiros, que requerem apenas garrafas PET e uma régua de medição, proporciona um modelo viável para empoderar as comunidades e fortalecer a preparação para eventos climáticos extremos.

No Rio, o Centro de Operações da prefeitura firmou parcerias para desenvolvimento de pesquisas utilizando os seus dados. Uma das parcerias está sendo feita com a Universidade de Columbia, dos Estados Unidos. Em março, a prefeitura e a instituição estrangeira lançaram o Climate Hub Rio, um centro dedicado a estudos sobre clima e meio ambiente. O município garantiu recursos para financiar a iniciativa até 2024.

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