A Escolinha Fabiano de Paula oferece aulas de tênis gratuitas para 120 crianças e adolescentes da Rocinha. O projeto promove o esporte como atividade de divertimento e contribui para a formação humana e cidadã dos alunos matriculados. Desde sua inauguração em 2015, mais de 500 crianças participaram do projeto e tiveram oportunidades pessoais e profissionais de vida.

Um exemplo é Gustavo Correa, morador da Rocinha, de 21 anos, que entrou na escolinha aos 13. Ele sempre se dedicou aos treinos e aos estudos e hoje é professor da escolinha. Gustavo já tinha o sonho de ser atleta e conheceu o programa por recomendação de um amigo, que mudou sua vida. “Se eu não tivesse conhecido o projeto, não sei onde estaria hoje.”

O programa foi fundado pelo ex-tenista profissional Fabiano de Paula, que também nasceu e cresceu na Rocinha. As aulas ocorrem em uma quadra de saibro localizada no Portão Vermelho, no alto da favela. Hoje, a escolinha extrapola os limites esportivos e, na maioria das ocasiões, alcança as esferas pessoais, éticas e profissionais dos alunos.

Além de formar possíveis tenistas profissionais, o projeto também abre portas para outros caminhos dentro do cenário esportivo. Para o coordenador do programa, Vitor Hugo Ferreira da Silva, 43 anos, a escolinha é muito importante no desenvolvimento pessoal e profissional dos alunos. Segundo ele, é muito difícil que jovens da Rocinha consigam praticar um esporte com esses custos.

“O tênis ainda é um esporte elitizado. As raquetes são caras, estão em torno de R$1600. Um tubinho de bolas está em torno de R$70. Aqui a gente consegue quebrar esses valores, e isso é muito importante. Nós temos vários alunos que, graças ao projeto, ingressaram na faculdade de Educação Física, trabalham como professores e instrutores, trabalham em lojas de tênis, encordoando raquetes. Só depende deles para se desenvolverem como pessoas, cidadãos e atletas. São vários benefícios para os garotos da comunidade.”

Apoios financeiros mantém iniciativa

A Escolinha Fabiano de Paula já passou por dificuldades financeiras. Durante cerca de dois anos, os professores do projeto não receberam salários, e não havia materiais suficientes para a prática do tênis. Nessa ocasião, foi realizada uma ação de financiamento coletivo com o objetivo de arrecadar R$60 mil. Hoje, porém, o programa é patrocinado por duas organizações: a “Rede Tênis Brasil”, uma organização não governamental; e a “Tennis Route”, uma academia do Governo Federal.

As raquetes e bolinhas são doadas, tanto por essas instituições quanto pelos próprios pais de alunos que desejam contribuir. A quadra de saibro nunca passou por nenhuma reforma, mas recentemente, um representante da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer visitou a Escolinha para discutir uma possível restauração.

Alunos que se destacam na escolinha também ganham a oportunidade de treinar na própria academia da Tennis Route. Christian Felix Torres, 21 anos, matriculou-se inicialmente na Escolinha Fabiano de Paula aos 12 anos e, atualmente, é professor de tênis nos dois projetos. Para ele, a parceria com a academia do Governo foi essencial para sua evolução pessoal.

“Com sete meses de tênis aqui no projeto, comecei a competir e fui bem nos torneios. Depois, ganhei a oportunidade de treinar na Tennis Route, que é referência no Brasil, por dois dias na semana. Comecei a jogar os torneios estaduais e nacionais. Com 17 anos, eu conheci o capacitador da Federação Francesa de Tênis aqui no Brasil. Ele cuidava de um setor sub-15 da Tennis Route e eu me capacitei com ele. Hoje faço faculdade de Educação Física e trabalho lá com crianças de quatro a quinze anos.”

Impacto social nas famílias

Valter Davi Marques Albuquerque, 17 anos, é um exemplo de aluno que obteve distinção. Hoje, ele disputa torneios de tênis em diversas regiões do Brasil e até em outros países. O jovem entrou no projeto aos seis anos, após sua mãe receber um panfleto que contava sobre o início da Escolinha Fabiano de Paula. Valter disse que suas experiências com viagens são fundamentais para abrir portas, conhecer outras pessoas e formar laços de amizade.

“O projeto me dá várias oportunidades, seja de seguir para um lado profissional, seja no lado universitário. Poder ter a opção de tentar se formar nos Estados Unidos ou até mesmo por aqui. Vejo outras pessoas que entraram antes de mim e hoje podem trabalhar como professores ou entrar em uma faculdade por causa do tênis. Entendo que o projeto abriu portas para muita gente.”

Pai de Valter, Valdir Inácio Albuquerque, 55 anos, acredita que a escolinha foi fundamental para a evolução do seu filho como atleta e principalmente como ser humano. Ele disse que ficou muito feliz com tudo que o tênis trouxe para a vida do menino e já o vê como uma pessoa melhor.

O pai do atleta falou que o projeto social é muito valioso e impacta na vida de todos em volta. De acordo com ele, essas experiências não existiriam sem o esporte, não seria possível arcar com todas as despesas envolvidas, haja vista a condição financeira familiar.

“Todos sonham em ser número 1 do mundo, a gente sabe que é difícil, mas deixa ele sonhar. O importante é daqui a um ou dois anos ele poder fazer uma faculdade lá fora. Hoje, com o nível de tênis que ele tem, já poderia entrar tranquilamente em uma faculdade D1, que é a melhor. Primeiro tem que botar o diploma debaixo do braço e depois, se tiver talento, tentar seguir a carreira profissional.”

*Reportagem produzida através da disciplina Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback por meio de extensão universitária do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

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