Uma origem possível da palavra religião remete ao latim religare, que significa atar ou ligar com firmeza. Na maioria dos centros religiosos há encontros frequentes e o elo é feito não apenas com o sagrado, mas entre os membros da comunidade religiosa. Porém, em um momento em que o encontro físico com o outro é potencialmente letal, repensar a realização dos cultos foi uma necessidade para as organizações religiosas. Principalmente, na Rocinha, onde mais de 50 moradores faleceram por causa da Covid-19.

Os poderes executivos, legislativos e judiciário divergem a respeito da realização de encontros religiosos presenciais. No dia 25 de maio, por exemplo, a prefeitura do Rio de Janeiro liberou as celebrações e, em poucos dias, o Ministério Público entrou com uma ação contra a medida, que foi acatada. Já em junho, o governador Wilson Witzel determinou o funcionamento de igrejas e outras áreas da economia como parte do plano de reabertura gradual. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais públicos e fechados, que havia sido aprovado no Congresso. 

À parte das disputas políticas institucionais, os espaços de fé parecem ter certa autonomia em decidir pela suspensão ou manutenção dos encontros presenciais. A Arquidiocese, ligada à Igreja Católica, dispensou os fiéis das missas no dia 17 de março, sugerindo a realização de cerimônias transmitidas online, e no dia 4 de julho anunciou a retomada das missas presenciais, indicando medidas de segurança a serem tomadas.

A Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, localizada na parte alta da Rocinha, seguiu as recomendações da Arquidiocese e retomou suas atividades presenciais no começo de julho. Maria Edileusa, coordenadora da pastoral social da Igreja, conta que as missas eram transmitidas pela Internet no período em que a Igreja ficou sem receber fiéis: “As celebrações foram transmitidas todos os dias via Facebook; domingo às 8h e durante a semana às 19h. Três Freis celebravam na Igreja vazia.”

Com a suspensão de missas presenciais, espaço da igreja católica na Rocinha serviu de ponto de apoio para chegada de cestas básicas. Foto: Diego Cardoso

Com o retorno das missas, que ocorrem diariamente, foram adotadas algumas medidas de proteção ao novo coronavírus. “Os ministros do acolhimento ficam na portaria com álcool em gel e medem a temperatura corporal de todos os fiéis que chegam para celebrar. Caso apresente febre, a pessoa será orientada a voltar para casa. Bancos afastados e cada um com limite de três pessoas. Então voltamos com um número bem reduzido de fiéis. Quem chega sem máscara, ainda na portaria, é solicitado a voltar apenas quando estiver com máscara. A missa de 9h30, conhecida como missa das crianças, continua acontecendo apenas remotamente”, explica Edileusa, que também é conselheira municipal de saúde.

Os idosos e demais pessoas do grupo de risco da doença são aconselhados a não comparecem às missas presenciais, e, para aqueles que desejam comunhar, o Frei dispõe de um ministro que vai até a porta da casa dessas pessoas deixar a comunhão.

Religiosidade à distância

Já na Tenda Espírita da Oxum, terreiro de Umbanda, os encontros presenciais estão suspensos. Michelle Lacerda, Yakekerê (mãe pequena) do terreiro, conta que a mãe de santo da casa pertence ao grupo de risco da doença causada pelo Sars-CoV-2 e está isolada no interior do estado do Rio de Janeiro.

“A Yalorixá, que é a mãe de santo, faz parte do grupo de risco e se encontra recolhida em uma casa do interior do Rio, lá em Japeri. Então as giras estão suspensas desde o início da pandemia. Os encontros não passaram a acontecer virtualmente porque a Internet não funciona bem no lugar onde ela está em isolamento”, relata Michelle. “Então não voltaremos. Não temos data para voltar justamente porque precisamos de nossa zeladora viva. Para você ter uma ideia, o zelador de nossa zeladora, que é nosso avô de santo, está neste momento no hospital, em coma, por conta da covid-19”, diz.

Yakekerê diz que as giras da tenda espírita da Oxum estão suspensas desde o início da pandemia. Foto: Acervo

Algumas práticas se mantiveram, como os cuidados aos orixás (rezas, acender velas, fazer pedidos e agradecimentos): “Cuidando de Oxalá às sextas, Omulu, que é o orixá da saúde”, exemplifica a Yakekerê.

Celio Brito é pastor adjunto da Primeira Igreja Batista da Rocinha, na Estrada da Gávea, e conta que os cultos seguem acontecendo de forma “semi-presencial”: há transmissões ao vivo pela Internet e os encontros presenciais estão ocorrendo com um número reduzido. O auditório, que costumava abrigar 80 pessoas para as cerimônias, passou a ceder espaço para metade de sua capacidade. “Além de limitar o número de fiéis nos cultos, adotamos medidas de proteção como uso obrigatório de máscara, álcool em gel no acesso ao auditório e distanciamento”, explica o pastor adjunto.

Em março, a coordenação da igreja decidiu pela interrupção dos cultos de domingo a noite, mantendo apenas os do período da manhã. Já em junho, liberaram cultos noturnos às quartas-feiras. Durante o período sem cultos noturnos eram feitas transmissões online das cerimônias, aos domingos e quartas. “Adotamos também as lives em nossas redes sociais e na página do Youtube por entendermos que a palavra de Deus e a Igreja não estão restritos a um espaço físico. Dessa forma, continuamos levando a fé cristã aos membros de nossa Igreja”, coloca o pastor.

Também estão sendo realizadas transmissões ao vivo para a favela sobre temas mais amplos, como foi o caso da transmissão intitulada “Quarentena: como estamos vivendo?”, transmitida no dia 14 de maio pelas redes sociais da igreja.

Finanças em oração

A pandemia trouxe complicações financeiras para muitos moradores. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 7,8 milhões de pessoas perderam o emprego no período de março a maio. Com o fechamento ou restrição, muitos estabelecimentos, incluso templos religiosos, também enfrentam problemas para se manter.

Edileusa imagina que o caixa da Fundação esteja baixo, sobretudo devido ao cancelamento da festa junina, evento realizado todos os anos pela Paróquia. “A pandemia mexeu com a vida de todos. Eventos foram suspensos. A festa junina é o principal evento e o dinheiro arrecadado garante o ano todo”, aponta.

Os dizimistas continuaram indo até a Igreja para deixar a contribuição quando os encontros presenciais estavam suspensos; a secretária comparecia em dias alternados para receber o dízimo, que, segundo Edileusa, garante a manutenção da Igreja. Além disso, há a arrecadação do valor cobrado pelo estacionamento, que garante apenas o pagamento dos funcionários: vigias (4) e secretária. O balanço financeiro mesmo só será feito quando houver reunião de conselho com o Frei, e, no momento, todas as reuniões estão suspensas. 

No caso do terreiro de Umbanda, o sustento continua acontecendo a partir das mensalidades que permaneceram sendo pagas, mesmo que em um valor reduzido por aqueles que estão passando por dificuldades. “Conseguimos manter pelo menos o valor da vela, do defumador, enfim, das coisas muito básicas e pontuais que estamos fazendo”, coloca Michelle.

Em relação à Primeira Igreja Batista da Rocinha, Celio relata que não enfrentaram problemas no caixa, embora alguns fiéis estejam passando por um momento delicado.

*Sophia Mello, correspondente local sob supervisão de Michel Silva no programa de microbolsas do Fala Roça, em parceria com Repórteres Sem Fronteiras – Brasil

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