Todo final de semana, faça chuva ou faça sol, as manhãs e fins de tarde são de longas filas na parte mais alta da Rocinha. Organizadas por ordem de galões, garrafas e baldes na frente da bica de água natural no Laboriaux, cerca de 100  famílias preferem há anos ir buscar água potável para beber e cozinhar na biqueira, ao invés de encher as garrafas em casa. Moradora da Vila Cruzado, uma da sub-localidade da Rocinha, ela diz que sua qualidade de vida mudou com o consumo da água da biqueira.

“É como se fosse uma água mineral, mas é ainda melhor porque a gente sabe de onde vem. A Rocinha tinha muitas bicas, mas está tudo se acabando. Aqui, eu pego água desde que saí de Sergipe, em 2005, para cá. Eu tenho água encanada em casa, mas vai saber que caminho essa água percorre até chegar na minha caixa”, questiona a doméstica Maria do Socorro Pires da Silva, 47 anos.

Segundo relatório divulgado pelo Instituto Trata Brasil (ITB)sobre saneamento básico no país, mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água potável e quase 100 milhões não têm coleta e tratamento de esgoto. O ITB é uma organização formada por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país. 

Ainda, dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS)  publicados pela Agência Senado, indicam que cerca de 4 milhões de pessoas não contam com banheiros nas residências.

Gustavo Mendes de Lima, 28 anos, lembra que a rotina de cuidado era intensa quando morava com os pais no alto da Dionéia. Principalmente quando chovia, uma vez que a lama criada pela chuva estragava as velas dos filtros de barro, usados para filtrar a água da caixa d’água destinada ao consumo. “Teve um tempo que minha barriga ficava sempre doendo. Eu desconfiei que fosse água e aí estava comprando água mineral. Mas, infelizmente, nem todo mundo tem condições de comprar”, conta.

Hoje, com o retorno dos pais para o Maranhão, Gustavo mora sozinho na Dionéia, mas herdou o filtro de bairro e a rotina de cuidado com a qualidade da água para consumo dos pais. “Temos água encanada direto da mata na caixa e todo mês tenho que esvaziar e limpar a caixa. No inverno, por causa das chuvas, junta muita lama na caixa e aí o coitado do filtro e da vela trabalham o dobro para limpar”, destaca.

No Rio de Janeiro, o índice de atendimento urbano com redes de esgoto em 2021 foi de 68,3%, o que revela uma insuficiência no sistema de saneamento básico do estado. Os serviços de assistência sanitária estão concentrados em bairros privilegiados da capital. 

Moradores das favelas, que convivem majoritariamente com  esgoto a céu aberto, ainda é uma realidade. Eles são impedidos de ter acesso a um saneamento básico de qualidade pelo Estado. É o que revela mapeamento realizado pela equipe do projeto “Na Régua: arquitetura acessível, moradia digna”, ligado ao Governo do Rio em parceria com a Uerj.

Divulgado em novembro de 2021, o Censo de Inadequação Habitacional em 821 residências localizadas da Roupa Suja e Macega, área da parte baixa e alta da Rocinha, mostra como ainda é necessário produzir uma política pública eficiente para as favelas. Especialmente, nas áreas mais vulneráveis das comunidades. 

Ao todo, o projeto entrevistou 21.390 famílias em 22 comunidades do Rio, revelando como o acesso a direitos essenciais como a água potável, é um direito negado em territórios com baixo índice de desenvolvimento social da região metropolitana: Tijuquinha, Jacarezinho, Brás de Pina, Vila Coimbra, Rocinha (Roupa Suja e Macega), Morro do Kisuco, Mangueira, Marcílio Dias (Cinco Bocas), Dom Bosco, Morro da Paz e Morro da Penha.

Isso significa que 43,61% dos domicílios em favelas não dispõe de filtro de água, comprometendo o acesso à água potável. No total, 29% das casas sequer têm abastecimento de água ou estão com a distribuição de água irregular e sem qualidade.

É o caso de Maria do Socorro, moradora da Vila Cruzado, que mesmo tendo em casa água encanada, não confia na qualidade dessa água para beber e cozinhar. “Eu por muito tempo comprei galão de água lá para casa. Nunca tive filtro, até porque minha torneira da pia é daquelas bem simples, nem sei se aguenta alguma coisa. Mas, na pandemia, comprar água ficou caro demais. Até hoje está caro, uma coisa que é pra matar a sede da gente, cozinhar, tomar banho e fazer tanta coisa não deveria nem ser cobrada”, opina.

Quando o marido perdeu o emprego na pandemia, ela conta que recorreu à biqueira do Labouriaux para garantir acesso a água potável de qualidade. “A primeira coisa que fiz foi voltar a pegar água na bica, porque já era uma economia. Juntei os galões tudinhos que tinha guardado e subia, mas para descer, só de kombi”, explica Maria do Socorro.

Sem saneamento e abastecimento de água

Existem três reservatórios em operação na Rocinha: Navio, Terreirão e Laboriaux, que recebem manutenção caso haja necessidade, além de registros distribuídos pela Rocinha. Porém, os atuais reservatórios não têm capacidade de abastecer todas as casas. São necessários construir mais quatro reservatórios para atender a Rocinha quase por completo, de acordo com o extinto programa Comunidade Cidade, do Governo do Rio.

A falta de água não é mais só um problema que ocorre, especialmente, no verão. Gustavo Mendes, morador da Dionéia, reclama que a ineficiência do abastecimento de água obriga ele a recorrer aos vizinhos.

“Quando chega o verão é desesperador ter que acordar uma, duas, três da manhã para conseguir ligar a bomba e, mesmo assim, não conseguimos encher a caixa porque não tem água na rua.  Às vezes, tenho que ir trabalhar virado porque passei a madrugada lavando a roupa ou fazendo outras coisas para aproveitar a água”, relata. Ele reclama também que antes conseguia encher os galões com água da bica na Vila Verde, mas agora usa somente a do “Laboriaux para beber e cozinhar”, afirma o morador.

Maria do Socorro faz coro com a reclamação do abastecimento de água na Rocinha, mas lembra que “existem outras áreas no Rio que às vezes têm uma situação ainda pior do que a Rocinha”. 

Porém, ela protesta sobre o tratamento desigual dado a um direito humano à água nas favelas. “Se você analisar com os bairros bacanas mais estruturados, vemos que a Rocinha não é colocada como igual, é sempre favelada e pronto. A gente ouve falar que a Rocinha é um bairro, mas vejo que muito do que têm nos bairros chiques de hoje, a Rocinha não tem.”.

Após a privatização da Cedae, a empresa Águas do Rio, pertencente à companhia Aegea, assumiu a responsabilidade sobre o abastecimento de água e tratamento de esgoto em boa parte do estado, comprando dois blocos dos 4 divididos para leilão. Entre as regiões adquiridas está a Rocinha e Vidigal.

O relatório do censo realizado pelo projeto “Na Régua” revelou ainda que, além da falta de água potável, às famílias nas favelas em situação de pobreza extrema têm  as mulheres desempenhando o papel de chefes de famílias. Elas vivem com uma renda de apenas R$100 por pessoa. Além disso, 80% das moradias possuem um ou mais moradores com doenças graves ou crônicas, com destaque para ocorrências de asma. Doença respiratória agravada pelo mofo, falta de alvenaria, infiltração e outros problemas de circulação de ar encontrados nos lares. 

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