Há 3 meses, o Fala Roça distribui milhares de cestas básicas para moradores da Rocinha através de 25 organizações sociais que atuam no morro. Faltavam cerca de 20 cestas para finalizar o último dia de distribuição dessa leva.

Às 9 horas da manhã, era possível ver uma aglomeração de moradores formando uma fila no ponto de distribuição, Alugamos um espaço de uma creche particular onde guardamos e entregamos as cestas básicas aos moradores cadastrados previamente. As entregas só começaram às 12h.

Com a movimentação, muitos moradores não cadastrados nos procuravam para pegar uma cesta básica, mas não era possível dar porque todas elas já tinham dono. Esses moradores deixavam o nome completo e o telefone de contato na esperança de que um dia de ligássemos para eles. Outros aguardavam ali mesmo imaginando que podia sobrar, de repente. E sobrou.

Nas noites anteriores, fizemos muitas ligações aos moradores marcando o dia e a hora das entregas. Felizmente tiveram moradores que não precisavam mais da nossa ajuda ou simplesmente não atenderam nossas ligações. A oportunidade foi dada às pessoas da lista de espera que aguardavam ansiosamente na entrada do prédio.

Perdi a conta de quantas vezes eu desci e subi aquelas escadas. Chamava os moradores cadastrados de dois em dois para evitarmos aglomeração. Às 15h, liberamos a última moradora cadastrada. Era hora de começar a chamar os moradores da lista de espera que estavam aguardando desde cedo pela ‘sorte’ de alguém que não ter ido buscar os alimentos.

Nesse meio tempo, eu pensei muito sobre como, ainda em 2020, enfrentamos a fome em um planeta rico em recursos naturais. Na mitologia grega, Deméter a deusa da produtividade, era atrapalhada por uma rival invejosa que sempre cruzava o seu caminho: Limos, a deusa da fome, uma espécie de entidade maligna temida pelos mais pobres. Embora a produção de alimentos tenha aumentado nas últimas décadas, a luta de Deméter ainda é atual e vai piorar após a pandemia por causa da recessão no país.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, comentou sobre o risco da pobreza extrema. “Há alimentos mais do que suficientes no mundo para alimentar a nossa população de 7,8 bilhões de pessoas. No entanto, hoje, mais de 820 milhões de pessoas passam fome. E cerca de 144 milhões de crianças com menos de 5 anos são raquíticas, mais do que uma em cada 5 crianças em todo o mundo”, alertou o secretário-geral.

Toda vez que eu descia a escada do prédio para chamar um morador, as pessoas se calavam. Se entreolhavam para ver quem seria chamado. Alguns fechavam os olhos. Talvez estavam rezando, torcendo pra si. Dona Maria*, de 68 anos, exclamava com certeza: “Agora sou eu!”, mas não era. Seu José*, um pedreiro que está vivendo de bico, foi o chamado da vez. Ajoelhou e agradeceu a São José, o pai adotivo de Jesus no evangelho.

Na lista de espera se ouvem muitas histórias. Eu procurei não fazer amizades para não desapontar ninguém. Com a fome não se brinca. Enquanto Seu José estava na sala retirando sua cesta básica, mais moradores chegavam em busca de doação. E seguem chegando por todos os lados, nas ruas, nos celulares, nas nossas redes sociais.

Desde abril já entregamos quase 8 mil cestas, foram milhares de pessoas beneficiadas antes mesmo de o auxílio emergencial sair. Certamente aliviou a saga de muitas famílias. Mas não ter só mais 20 cestas para aquelas pessoas naquele dia me quebrou inteiro por dentro. A gente sempre quer fazer um pouco mais. Embora eles sejam os primeiros da lista do mês que vem, o que será que eles vão comer no jantar de hoje?

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