Ao entrar em muito lares na Rocinha é comum ser recebido com latidos e lambidas de um cão ou um olhar desconfiado de um gato que, aos poucos se acostuma com sua presença. E no âmbito nacional não é diferente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, o Brasil ocupava o segundo lugar no ranking dos países pela quantidade de animais de estimação com cerca de 140 milhões de bichinhos. Ainda de acordo com a pesquisa, o brasileiro tem mais cães e gatos  do que crianças em casa. 

No entanto, na mesma medida em que muitos moradores optam por ter algum animal doméstico, a situação de abandono na Rocinha também é grande. E ao observar este cenário, a moradora Ruth Nascimento, de 56 anos, criou o abrigo  “Flor e Xavier: cantinho dos abandonados”, onde sobrevive de doações há oito anos e acolhe cerca de 160 gatos abandonados.

Ruth Nascimento mantém o abrigo “Flor e Xavier” em meio a pandemia de covid-19 no alto da Rocinha.
Foto: Eduardo Herculano

“Eu cuido de gatos há 17 anos. E fico triste quando vejo qualquer bichinho desses na rua, por isso eu pego, cuido, castro, às vezes devolvo e, às vezes, não. Porque fico com pena. Faço tudo isso por amor, porque eu não recebo uma quantidade suficiente de doações para manter o meu abrigo. Algumas pessoas me ajudam, mas não é o bastante. E é um trabalho difícil, porque é um gasto muito grande com remédios, ração”, disse a moradora. 

De acordo com um levantamento, a Rocinha tem cerca de 6.940 cães e 1.390 gatos. E durante a pandemia da covid-19, no estado do Rio de Janeiro, o número de animais abandonados subiu 40%, chegando aos 1,3 milhões. Para a médica veterinária Daniele Pimentel, de 44 anos, que trabalhou por três anos na Rocinha, um dos principais motivos desse abandono é a falta de renda para sustentar esses animais.  

“Acredito que o abandono seja, muitas vezes, por falta de dinheiro para arcar com o tratamento e manutenção do animal e também pela procriação sem controle. O que vi muito na Rocinha são pessoas que criam os gatos soltos pela rua, e estes têm vários filhotes que também ficam pelas ruas. Por isso, a esporotricose é bem grave na Rocinha. E é necessário um tratamento longo, porque é uma doença que pode passar para os humanos. Então, o dono escolhe abandonar o animal”, afirmou a veterinária. 

Além dos gatos, Ruth também tem a companhia de cinco cachorros em sua moradia. Foto: Eduardo Herculano

Apesar do cenário desfavorável, tanto pela quantidade de bichos espalhados quanto pela falta de recursos para manter o abrigo ativo, o amor pelos animais faz com que Ruth mantenha o espaço, mesmo que isso demande um tempo a mais ou a faça perder algumas oportunidades na vida.

“Eu já perdi muita coisa na vida por causa dos meus bichinhos e não me arrependo. A última coisa que perdi foi o meu marido, após 17 anos de casamento. Hoje em dia, sou eu, meus animais e uma voluntária que me ajuda quando pode”, relatou ela que, com a fé acredita que tem um lugar especial reservado após a morte. 

“Quem tem amor e cuida dos bichinhos, tem um lugarzinho no céu. Eu tenho certeza disso. Toda hora alguém me chama para resgatar algum animal, e eu não tenho como abraçar a Rocinha toda, infelizmente. Mas as pessoas me ligam, me pedem socorro, e eu vou. E a minha função é essa: cuidar dos animais enquanto eu estiver viva.”

Interessados em ajudar o abrigo podem entrar em contato com Ruth pelo número (21) 99733-2094.


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