Uma casa no miolo da Rua 2 guarda uma história de amor de 43 anos. Ou melhor, guardava. Jurema e Nicinha são protagonistas em um dos episódios da série documental “Meu Amor – Seis Histórias de Amor Verdadeiro”, que estreou no dia 13 de abril na Netflix.

A série de 6 episódios acompanha a vida de casais na Índia, no Japão, Coreia do Sul, Espanha, Estados e Brasil. Na Rocinha, a história de Jurema e Nicinha, que juntas, criaram seus filhos e netos, foi registrada ao longo de 12 meses, em 2019. O documentário explora as nuances do dia a dia de uma história sensível enquanto o casal persegue seus sonhos, refletindo sobre os segredos do amor para a vida toda.

Na laje da casa na Rua 2, Jurema e Nicinha relatam suas histórias enquanto contemplam o entardecer na favela. Foto: Renato Araujo/Fala Roça

Segundo a diretora do episódio, Carolina Sá, o fato do casal ser de mulheres negras, lésbicas e praticantes de umbanda mostra a diversidade da família brasileira. “Nicinha e Jurema simbolizam tanto essa diversidade quanto essas várias formas de resistência. Elas representam uma parcela imensa da população brasileira que sofre preconceitos diariamente, e que resiste graças à sua fé e amor.”, opina.

As filmagens mostram da festa a falta de água no morro, os rituais religiosos no terreiro, o vai e vem de pessoas pela casa e o sonho da aposentadoria do casal. “A gente vive cercada dos netos, dos filhos. Tem o Soca, meu filho que mora lá em cima com a família. Tem a Michelle que mora do lado. Tem a filha da Jurema que mora do lado com os netos”, conta Nicinha.

As duas trabalharam a vida inteira como empregadas domésticas. Hoje, só Nicinha continua trabalhando. No documentário, a cumplicidade do casal expõe os perrengues e conquistas, como o terreno que compraram no distrito de Engenheiro Pedreira, na zona rural do município de Japeri, há 70km de distância da Rocinha.

O documentário explora as nuances do dia a dia de uma história sensível enquanto o casal persegue seus sonhos, refletindo sobre os segredos do amor para a vida toda. Foto: Reprodução/Netflix

Com fala mansa, Jurema lembra o passado pitoresco da favela. “Eu nasci e me criei aqui na Rocinha. A Rocinha era roça de verdade. Tinha pé de bananeira, de laranja. Carregava lata d’água na cabeça. E lá em cima, na Rua 1, que era uma verdadeira roça, eu conheci a Nicinha.”, conta ela no documentário.

As duas se casaram em uma noite de São João, pulando fogueira com juras de amor: “De ficar juntas até que a morte nos separasse”. De acordo com dados do IBGE, os casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo dispararam em 2018 na comparação com o ano anterior. 9.520 casais homoafetivos decidiram se unir formalmente em 2018, diante de 5.887 em 2017, o que representa um aumento de 61,7%.

“Eu sempre digo pra Jurema que o sonho é uma coisa que a gente constrói aos poucos. A nossa casa da Rocinha, a gente que construiu. Agora estamos construindo essa daqui, onde a gente pretende vir morar e envelhecer”, relata Nicinha. A obra já foi concluída.

Para a diretora Carolina Sá, o acolhimento na favela foi uma experiência enriquecedora. “É triste ver como o poder público ainda não sanou necessidades básicas como o abastecimento de água numa área tão populosa. É uma beleza ver a potência cultural e humana que tem na Rocinha. Posso dizer que me senti muito acolhida e segura nos meu anos de convivência intensa com a favela.”.

Essa matéria faz parte da 11° edição impressa do Fala Roça
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O documentário nesta quinta-feira (18/07), às 19h, na Biblioteca Parque da Rocinha