Considerada por críticos a “Dama do Teatro” de sua geração, Alitta é uma mulher trans, atriz, cantora e dramaturga, nascida e criada na Rocinha. Passando pelos palcos nacionais e internacionais, ela está em turnê na Europa com a peça “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, que tem sido apresentada nos principais festivais europeus desde junho de 2023. Como fruto de um trabalho árduo, ela ganhou o prêmio Radikal Jung Festival 2024 como melhor Performance.

Alitta já passou por algumas localidades da Rocinha e hoje mora na Via Ápia. Como moradora, a atriz fala sobre a vivência enquanto mulher trans na Rocinha e um pouco do que a favela representa para ela. “Ser uma mulher trans não só na Rocinha, mas como em qualquer outro lugar e ambiente é uma experiência complexa e que também tem seus desafios, suas dificuldades. Também há um lugar de resiliência e que, ainda que exista um preconceito, vale ressaltar que eu não vou apanhar na minha favela só por ser uma mulher trans, diferentemente de outros bairros da cidade”, frisa a jovem. 

Ela não deixa de relatar as muitas dificuldades e preconceitos que mulheres trans passam no dia a dia e reafirma a valorização da favela. “A cultura vibrante e diversa da Rocinha também influencia a experiência de ser uma mulher trans. Há uma rica tradição dos bailes funks, em que simplesmente são espaços seguros de expressão e celebração e de podermos ser quem somos sem medo. Por isso, eu amo Baile Funk, acho muito democrático”, afirma, ressaltando que o funk é ancestralidade para ela, uma vez que seus pais se conheceram em um baile.

O primeiro contato da atriz com a arte se deu quando sua mãe a colocou para fazer aulas de flauta e violino. Mais tarde, após o fim do ensino médio, ela estava em um jantar com uma professora, que falou sobre a Escola de Teatro Martins Pena. Foi lá que ela entendeu que poderia fazer da arte sua profissão. “Você tem hora para chegar ao teatro, mas não tem hora para sair”, brinca. 

Foi neste período que se lançou como Blackyva (juntando as palavras ‘negro/a e diva’, em inglês, como ‘Diva Negra’, em tradução livre). Na defesa do funk, criou “um show-espetáculo para trazer o meu ponto de vista sobre como era ser uma pessoa oriunda de uma comunidade”. No teatro, o primeiro trabalho profissional foi em 2017, com o espetáculo “Balé Ralé”, que tinha no elenco Vilma Melo, primeira atriz negra a vencer o Prêmio Shell como melhor atriz.

O teatro mudou a vida de Alitta, como ela bem gosta de frisar, e também contribui para mudanças na sociedade. “Do mesmo modo que por meio do Teatro eu me descobri uma pessoa trans, também entendi mais a fundo questões raciais. Até então, não me reconhecia como uma pessoa preta, apesar de já vivenciar o racismo”, pontua. “A arte, para mim, não é só uma profissão, é uma missão, porque, assim como ela mudou a minha vida, traz uma reflexão poderosa sobre nossas identidades, uma mudança cultural e a necessidade de um progresso contínuo.”

Ao falar da indicação ao Prêmio Shell de Teatro Brasileiro, Alitta diz que ficou surpresa após ter sido informada por um amigo. “Não tinha entendido nada e quando abri [a mensagem] e vi que era a lista dos indicados, das 16h às 20h eu passei mal, fiquei sem acreditar.” 

Além desta indicação, Alitta é vencedora do Radikal Jung Festival, que ocorre uma vez por ano em Munique, na Alemanha, e visa promover a nova geração de criadores de teatro. Ela se apresentou no último dia do festival, que contou com a premiação. “Eu estava saindo para poder voltar ao hotel e fui puxada por dois homens gigantes para esse outro espaço, onde estava ocorrendo a cerimônia. Quando entrei na sala, todos começaram a aplaudir e foi uma loucura porque eu de fato não estava sabendo o que estava acontecendo. Foi surreal!”, lembra, frisando a felicidade com o reconhecimento. 

“Eu sinto que consegui realizar sonhos imagináveis e inimagináveis também. Porém, minha trajetória ainda é algo que está em construção. Por enquanto, ainda vivo uma montanha-russa, construindo essa carreira. Mas hoje eu entendo onde está a minha força, o meu motivo e a minha razão de ter escolhido a Arte. Eu entendi também que não era o respeito dos outros que eu tinha que ganhar, mas o meu próprio respeito. Encontrar o meu próprio caminho e não estar refém da validação do olhar do outro, conseguindo, assim, de forma generosa comigo mesma, dar valor a mim e ao meu trabalho.”

Perguntada sobre qual recado deixaria para os jovens, Alitta pede para que estudem e não deixem de sonhar. “A sua vida é única. E, se a gente não acreditar na gente, não há outra pessoa que vá acreditar.”

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