Nas noites de terça-feira, por volta das 19 horas, moradores que sobem os becos da Cachopa, na parte alta da Rocinha, já escutam os gritos das crianças dali: As tias do cinema chegaram! As tias do cinema! Bora!”. Em seguida, logo é possível avistar uma fila de crianças atrás da tia Maria e da tia Jordana.

As jovens, então, vão em direção a uma grande área aberta com vista para o céu, em uma parte asfaltada com um balanço antigo, duas mesas quebradas, cercada por casas e pequenas vendinhas, mais conhecido como campinho. Trata-se de uma pracinha esquecida pelo poder público, mas lembrada e escolhida pelas duas amigas para abrigar um cinema itinerante.  

“Eu queria fazer alguma atividade cultural com as crianças, mas meu sonho mesmo era fazer um cinema na Rocinha, onde as pessoas adultas pudessem ir. Porque sei que muitas pessoas não podem pagar um ingresso, só que eu já tinha contato com as crianças, então acabou ficando um cinema só para as crianças mesmo”, conta Maria Orange, de 23 anos, moradora da Rua 1.

Com a amiga Jordana Steinbruck, ela monta sozinha a tela de cinema: uma lona branca amarrada entre duas pilastras de madeira em um sobrado antigo, que facilmente poderia ser feito de palco. Elas arrumam as cadeiras de frente para tela com cuidado, ligam o projetor, a caixa de som e chamam as crianças para sentar. Daí, apagam-se as luzes do campo e a magia do cinema começa a acontecer. 

As crianças vão chegando aos poucos, parte delas em silêncio, e vão se acomodando nas cadeiras vagas. Muitos dos pais e mães que acompanham os filhos, que foram correndo na frente, vão se instalando nas escadas e bancos em torno do campinho. A partir daí, o clima do ambiente é cheio de sussurros para não atrapalhar o filme das crianças. 

Desta vez, o filme exibido foi Toy Story, de 1995, um filme infantil nos quais os personagens são brinquedos, o que facilmente chama a atenção das crianças. O público do cinema itinerante é, na grande maioria, formado por crianças com faixa etária de 4 a 11 anos. A dupla tem uma página no Instagram chamada Joias do Morro, onde postam a rotina das atividades.

As exibições começaram a partir de dezembro de 2021 através da parceria de Maria Orange com a amiga Jordana Steinbruck, de 23 anos e moradora do Jardim Botânico. A primeira dição aconteceu na Rua 1, próximo à casa de Maria. 

“Eu lembro que a gente nunca tinha mexido num projetor e foi um desafio ali no momento, mas acabou fluindo super bem! As crianças gostaram muito e ficaram tão entretidas no filme! Foi muito bom sentir o quanto eles realmente se interessaram e o quão agradecidas elas estavam por aquele momento, foi uma sensação incrível de que estávamos na direção certa!”, conta Jordana Steinbruck.

Mas, com o tempo, a atividade foi se expandindo para outras áreas do morro, tendo edições realizadas também na Rua 2, no Valão e, agora, na Cachopa. As amigas começaram a produzir ações culturais na Rocinha quando levaram crianças para um passeio para a Bienal do Livro. 

“A primeira vez que enchemos a van e fomos lá para a bienal do livro, foi um dia incrível e vimos como as crianças gostaram, e isso nos deu o gás de continuar procurando mais e mais passeios e outras formas de trazer esses aprendizados e entretenimento para eles!”, comenta Jordana.

As jovens, também, realizaram outros passeios com as crianças: “A gente já foi no Jardim Botânico, na praia da Urca, no zoológico, na Mangueira, no Santuário de animais, são muitos passeios que a gente já fez”, conta Maria Orange.

Sonho de expansão

O interesse das duas jovens é permanecer ocupando mais espaços na favela para realizar o cinema itinerante e, futuramente, achar um espaço próprio para realizar também sessões para os adultos. “A ideia agora é fazer na Quadra da Cachopa, fiz no fim de semana lá no Vidigal e no próximo vou fazer lá no Parque da Cidade, mas meu objetivo é que pudesse ter em todas as localidades, uma vez por semana, um cinema para as crianças”, explica Maria.

Elas ainda realizam eventos como festas juninas nas localidades que fazem as sessões de cinema itinerante. Além disso, as duas desenvolveram a Geloteca:  uma geladeira cheia de livros para as crianças. 

“A Geloteca são geladeiras que as pessoas jogam fora. A gente pega, reforma e decora com pinturas para deixá-la mais atrativa, bota os livros [arrecadados e doados] lá dentro. Colocamos a Geloteca nos lugares que desenvolvemos as atividades”, explica Maria.

Dar conta de tantas atividades culturais em tantos locais diferentes da Rocinha, requer tempo para fazer cinema com qualidade. Hoje, Maria e Jordana se dividem no “corre” do projeto do cinema itinerante e a universidade. 

“Eu quero expandir mais o cinema, pois temos demandas [pedido para fazer] de outros locais. Mas, eu e a Jordana não conseguimos por conta da faculdade. Então, eu estou na busca de achar outra pessoa [parceiros] para nos ajudar a expandir”, desabafa Maria Orange, que cursa a graduação de Medicina.

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