Cria da Rocinha, Valdemir Souza, conhecido como “Kuca”, morreu na sexta-feira (26/06), aos 51 anos. A informação foi confirmada pela família nas redes sociais. 

Kuca estava internado desde o começo de junho no Hospital Federal de Bonsucesso com quadro de pneumonia. Ele teve complicações nos rins e não resistiu. Devido a pandemia de Covid-19, familiares não estavam conseguindo visitá-lo por causa das restrições.

Valdemir Souza era visto frequentemente na praia de São Conrado jogando futebol de areia com amigos. Foto: Acervo familiar

De origem humilde, Valdemir nasceu e foi criado na Cidade Nova, localidade na parte baixa da Rocinha. Ele trabalhou no Instituto Metodista de Ensino Suzana Wesley, no Caminho do Boiadeiro, como um “faz tudo”. Em dias específicos, ele dava aula de futsal na quadra da escola.

Sempre em busca de conhecimento, ele voltou a estudar em um projeto social de alfabetização criado pela ONG Viva Rio, na década de 80. O projeto acabou, mas ele conseguiu concluir os estudos. Em seguida, cursou o ensino médio no CIEP 303 Ayrton Senna da Silva.

Os anos de ouro da Seleção Brasileira nos anos 90 encantava Kuca. A camisa 9 da canarinho poderia facilmente ser usada por ele. Por onde jogava, Kuca deixava muitos jovens admirados com a sua habilidade no futebol. Seja no campo de barro, na quadra ou na praia, ele anotou vários gols por onde passou. Jogou no Botafoguinho, Arco Íris, Makenze e, profissionalmente, chegou a atuar no Joaçaba de Santa Catarina na década de 90. Nos anos 80, ele também atuou no time de futsal do Flamengo.

Equipe do Arco Íris onde Kuca jogou na década de 90; agachado entre os dois companheiros de time. Foto: Acervo familiar

Na década de 2000, Valdemir participou do pré-vestibular no antigo clube Umuarama e conseguiu uma bolsa de graduação para cursar Direito na antiga Faculdade de Direito Evandro Lins e Silva (FELS). A universidade foi comprada em 2005 pela IBMEC. Já na faculdade, era lembrado como a importância da inclusão universitária pode melhorar a vida. Pegava livros emprestado com professores e contava causos da favela para colegas de turmas.

Além de jogar com outros moradores conhecidos do futebol local, como o Emerson Fit, Rogério Pajaraca, Claudinho da Academia e Edmilson Oliveira Silva, essa geração foi responsável por direcionar jovens e adolescentes para os estudos em conciliação com o esporte. Em 2015, Kuca fez parte da comissão técnica da Rocinha na Taça das Favelas e na Copa CBF Academy. 

Quando ainda era universitário, Kuca também fez estágio em um escritório de advocacia. Fazia de tudo para ser efetivamente contratado. Nos últimos anos, ele trabalhou na Biblioteca Parque da Rocinha como atendente. Em meio a pandemia da Covid-19, se uniu a amigos de longa data para arrecadar doações para os moradores. Mas precisou se internar para tratar a saúde.

Há pouco tempo, concluiu uma especialização de reparos em smartphones. Sempre em busca de conhecimento. Assim era Valdemir Souza “Kuca”.  Ele deixa a esposa e 3 filhos.

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