A Copa do Mundo chegou ao fim no último domingo (18/12), com a vitória da Argentina sobre a França nos pênaltis por 4 a 2, após empate em 3 a 3 na soma do tempo normal e da prorrogação, e levantou a taça do tricampeonato mundial. Mas, você sabia que a Rocinha já teve um time que faturou o maior campeonato de futebol entre favelas? E não foi com final empatado em disputa de pênaltis não!

O ano era 2012. Com o slogan “Taça das Favelas: um gol para toda a vida”, a Central Única das Favelas (CUFA) organizava pela primeira vez um campeonato de futebol com times de favelas do Rio de Janeiro. E, a Rocinha, foi a favela pela primeira vez a levantar a Taça das Favelas. Posteriormente, a premiação se consolidou como uma das mais importantes do país, sendo disputada em etapas regionais com equipes masculinas e femininas. 

A grande final da 1º edição foi disputada pela equipe da Rocinha em 11 de fevereiro de 2012, que saiu do campeonato invicta, sem perder nenhum jogo, tomando apenas um gol na final durante toda a competição. A final foi contra a favela do Jacarezinho, no campo de Padre Miguel, com placar de 3 a 1.

À época, o campeonato era disputado no formato de mata-mata e contou com a participação de 64 times masculinos de todo o Rio de Janeiro. Na final, o time da Rocinha abriu o placar, mas tomou um gol de empate do Jacarezinho no 1º tempo. 

Dias chuvosos foram desafiadores para os jogadores das comunidades. (Fotos: Caio Guatelli)

Porém, no 2º tempo, o time representando a Zona Sul virou o placar, retomou a liderança e ainda, meteu mais um gol no finalzinho da partida, fazendo a Rocinha, uma das maiores favelas da América Latina, campeã da 1ª Taça das Favelas. Quando os jogadores chegaram na favela, uma grande festa de comemoração aguardava o time e este feito inédito até hoje é motivo de orgulho lembrado com muito carinho pela comunidade. 

André Souza, o técnico da seleção da Rocinha, mais conhecido como Gabelson, e o integrante da comissão técnica Leandro Martins, contam que a trajetória da equipe da Rocinha na competição foi marcada por muitas dificuldades. Sem campo ou quadra de futebol para treinar, os jogadores treinavam na praia de São Conrado. 

“Na final, a CUFA enviou sete ônibus e, eu, por fora consegui mais sete. Por isso, a maior torcida era nossa. Subimos e descemos a favela em cima de um caminhão comemorando o título, recebemos as medalhas no Palácio Guanabara. Foi um dia que ficou marcado na minha vida. Nosso principal objetivo não era formar jogadores, e sim pessoas de bem. Pessoas que amanhã vão continuar o trabalho, tendo o projeto contribuído na vida deles. Hoje, 99% das pessoas que dão aulas nas academias aqui na favela foram meus alunos”, destaca.

Apesar de ser o técnico da seleção da Rocinha, Gabelson não tinha nenhuma experiência com futebol de campo, apenas com times de futsal. 

“Nós fomos convidados para jogar, porque não havia classificatória e o uniforme da equipe foi dado pela CUFA. Na festa do título, minha medalha até sumiu e quem me deu a camisa que tenho até hoje foi o Yuri. Recebi ligações de fora do país: da Holanda e da Itália”. 

Porém, no Brasil, para o técnico, faltou uma valorização da CUFA, pois o time da Rocinha foi “os primeiros campeões da história [da Taça das Favelas]”, opina o treinador. 

Granizo, praia e suor

No dia da grande final, Gabelson conta que os adversários, os jogadores da favela do Jacarezinho, fizeram provocações para desestabilizar o time da Rocinha. Inclusive, um membro da comissão do Jacarezinho. Porém, ele administrou a situação e incentivou a equipe, ressaltando que todos já eram campeões por vencer as adversidades para formar o time e treinar. 

Segundo ele, o time da Rocinha não era a grande favorita para vencer a Taça das Favelas naquele ano. Porém, todas as outras equipes queriam vencer a Rocinha. Os times das outras favelas queriam vencer a equipe que enfrentou chuva de granizo no primeiro jogo da competição e saiu ilesa. 

Gabelson relata que, realizar os treinos era um desafio, pois o time convivia com dificuldade como a falta de transporte e campo de futebol. Para conseguir formar a equipe, a comissão técnica fez uma espécie de peneira  no Complexo Esportivo da Rocinha, porém, o campo era de society.

Vestindo verde, o time da Rocinha venceu o time do Morro do Queto por 2 a 0 em uma partida do torneio. (Fotos: Caio Guatelli)

Parte dos jogadores também tinham experiência em times de bases de clubes profissionais grandes. Yuri Martins, por exemplo, tinha jogado no Fluminense e Vasco da Gama. Já outros, eram conhecidos dentro da comunidade. Por isso, o técnico conta que houve uma facilidade em selecionar os atletas. Entretanto, todos tinham experiência apenas em futebol de salão – que joga com cinco jogadores -, e não futebol de campo, modalidade que obrigatoriamente deve ter 11 jogadores. 

Leandro Martins, integrante da comissão técnica do time, revela que ganhar o título foi gratificante e uma realização enorme. “O jogo foi transmitido ao vivo pela Globo e no Sportv. Narrado por comentaristas renomados. Por fim, na preleção para a final, desceu um helicóptero e pousou no meio do campo de Padre Miguel. Nele desceu o Romário, nascido no Jacarezinho e gritando: ‘Jacarezinho, Jacarezinho!’. Mas nós demos a resposta dentro de campo. O placar foi de 3×1 para a Rocinha. Sinto que deixei meu legado”, avalia Martins.

A vitória na Taça das Favelas também despertou uma curiosidade sobre a quantidade de talentos que existem na favela, seja para o mundo do futebol ou para outras modalidades de esporte. 

Segundo ele, após a conquista do campeonato, blogs e jornais da periferia foram criados revelando a realidade dos moradores, que passou a ganhar destaque. Mesmo assim, ao chegar na Rocinha, Leandro Martins afirma que foi um choque para todos a reação da comunidade. Nem o time e tampouco a comissão técnica tinha ainda noção do que haviam realizado e da relevância de serem campeões do 1º título da Taça das Favelas. 

Porém, ele confessa que, quando ouviu o apito final da partida, um filme passou na cabeça dele com todas as dificuldades enfrentadas pela equipe técnica e dos jogadores. “Lembro que eu e o auxiliar técnico Diego Ornelas nos deslocamos até o clube do Flamengo, na Gávea. Tentamos contato com a presidenta do clube Patrícia Amorim para a equipe ter a oportunidade de treinar uma vez na semana no campo de 11, mas o pedido foi logo negado”, relata. 

E conclui: “O clube Ceres, em Bangu, deixou o campo à disposição, mas a logística de deslocamento para equipe não favoreceu. O jeito foi treinar na praia. Não tivemos experiência alguma de treino em um campo de 11, mas tínhamos ao nosso favor o fator importante na preparação física da equipe”, comenta.

*Conteúdo produzido pelos estudantes João Guilherme Saraiva e Vinicius Schelles através da parceria do Fala Roça com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio

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