Muitos jovens-adultos que criaram projetos sociais nas favelas nos últimos anos também são ‘crias’ de projetos sociais. Carlos Belo, o ‘Mister’, é um exemplo dessa geração. Nascido e criado na Rocinha, o surfista participou de uma entrevista ao vivo feita pelo Fala Roça através do quadro Diálogos Favelados, realizado todas as terças-feiras, às 18h, nas mídias digitais do jornal.

Mister fundou o projeto Vivendo Um Sonho Surf (VUSS), iniciativa social que utiliza o surfe como ferramenta socioeducativa. A ONG atende em torno de 50 crianças da Rocinha onde aprendem o esporte olímpico, alfabetização, educação cívica e acesso a informática. As crianças e jovens também participam de ações voltadas à sustentabilidade e meio ambiente.

Carlos revela que o surfe moldou e mudou sua vida ao longo dos anos, sendo esse o grande pilar para criar o projeto social e gerar oportunidades iguais ou melhores às que teve no passado. Em 2018, o surfista sentiu que a essência do esporte estava desaparecendo na Rocinha e não via mais a participação de moradores de favelas praticando o esporte e indo a competições devido aos custos financeiros.

“Vi a necessidade de criar o Vivendo Um Sonho Surf porque o surf estava morrendo dentro da nossa comunidade. Tinha apenas eu e Gabriel Popó atuando.”, relembra. Popó é da mesma geração de Mister e é considerado uma revelação do surfe.

Mister retornando da praia de São Conrado com crianças e jovens da Rocinha. Foto: Acervo/VUSS

Há poucos meses, Mister reuniu colaboradores para lançar uma campanha de venda de camisetas para reformar o espaço físico da organização no Valão, localidade na parte baixa da Rocinha. A ideia repercutiu internacionalmente e angariou verba para cobrir os gastos com a alimentação das pessoas atendidas. 

O sucesso da campanha foi além. Professores em diversos assuntos e metodologias aderiram à iniciativa e contribuem com a favela. “O surfe estava morrendo, eu amo meu esporte, amo o que eu faço e tenho prazer nisso. Quando fundei o projeto fiquei 3 anos e meio sem receber nada. Um dia falei que queria viver muito do meu sonho e essa parceira que me relacionava me deu esse pensamento também de colocar essa ideia de viver do meu sonho. Daí surgiu o nome: vivendo um sonho surf. Aí pegou, a galera abraçou a causa e estamos aí com o projeto ativão!”, comemora.

Atualmente o projeto conta com uma equipe fixa, colaboradores, voluntários e professores, sendo eles: Carlos Belo da Silva (Mister), Marcos Braz, Edson Bastos, Carlos Saraiva (Tubarão), Yasmin Santos e Catarine Fedencio. Crianças e jovens podem se inscrever através de perfis do projeto nas redes sociais. A inscrição pede documentos básicos de identificação. Um dos principais requisitos para ter a inscrição aceita é estar matriculado em alguma escola.

O surfe é um esporte caro de classe média e alta. Apesar de ter se tornado esporte olímpico, há poucos incentivos fiscais de órgãos governamentais. Segundo Carlos Belo, o poder público sempre pecou na questão de ajudar projetos pequenos, criando editais com limitações. “As pessoas que modelam os editais precisam vir ao espaço presenciar e visualizar a necessidade que os projetos precisam, ver a potência sem recursos e o desenvolvimento com recursos. Enxergar o projeto por dentro”, avalia Belo.

Sem dinheiro para acomodação, alimentação e deslocamento, a busca por patrocínios esbarra em questões raciais. “Eu sou um surfista negro, sou um surfista preto. O surfe tem um padrão que é o surfista loiro, de olhos azuis e para arrumar patrocínios foi difícil, foi na raça.”.

Embora os recursos estejam limitados, o VUSS pretende expandir as atuações e atender mais crianças na favela. Para isso, existe uma página na web com uma campanha recorrente no qual as pessoas podem apoiar financeiramente a iniciativa. Os valores variam de R$ 30 a R$ 115 por mês.

“Hoje, dentro do social, sinto que foi uma obrigação retribuir o que fizeram pra mim, retribuindo as oportunidades que me deram e contribuir para minha favela”.

Texto de Rodrigo Silva supervisionado por Michel Silva*

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