A filósofa e escritora Sueli Carneiro, reconhecida no mundo todo por integrar o movimento social negro brasileiro, é direta ao dizer que “o racismo é um sistema de dominação, exploração e exclusão que exige a resistência sistemática dos grupos por ele oprimidos, e a organização política é essencial para esse enfrentamento antirracista.”.

Algumas ações de enfrentamento antirracista estão vindo das salas de aulas da Escola Municipal Francisco de Paula Brito, na parte alta da Rocinha, onde professores e alunos do 1° ao 5° ano estão realizando atividades lúdicas para com objetivo de trabalhar temáticas raciais dentro da sala de aula a partir de uma educação antirracista.

Nas primeiras semanas, os alunos participaram de oficinas de capoeira, produção de bonecas africanas, artes, danças como congá e maculelê, além de um passeio pela cidade para aprenderem sobre territorialidade. Muitas crianças nunca tinham saído da Rocinha.

Segundo o diretor da escola, Marcelo Viana, as atividades começaram no dia 15 de maio, o dia da abolição da escravatura. Impulsionados pela história de Francisco de Paula Brito, homem negro e percursor da imprensa e da literatura no Brasil, trazer a discussão do racismo para as salas de aulas tem sido um aprendizado.

“A questão do racismo está bem latente no universo de discussão, a questão das minorias como as suas representações, os paradigmas a serem quebrados e a ideia toda surgiu primeiro porque o patrono da escola – Francisco de Paula Brito – era muito envolvido com o movimento abolicionista e o segundo ponto é que poucas pessoas conhecem essa história.” , explica o diretor da escola, que complementa: “Ele participou do movimento antiescravidão, foi ensaísta, poeta, ajudou a libertar escravos não só cedendo espaço, mas comprando alforrias (documento qual provava a libertação de escravos).”

Mural em um dos corredores da escola com textos escritos pelos alunos. Foto: Fala Roça

Parte do corpo docente da escola se autodeclararam negros. Aproximadamente 550 crianças estudam na escola municipal e a maioria delas moram na Rocinha. As questões raciais não se limitam ao colorismo. Ela perpassa pela fome, renda, segurança, educação entre outros temas.

“O que a gente quer mostrar para essas crianças, que acho que é o fundamental, é mostrar que elas são capazes de mudar o espaço onde elas vivem. Eu falei na reunião de pais que a educação abre portas, mas não é um processo que resolve em pouco tempo, são etapas e se todos estiverem com o mesmo objetivo e a mesma perspectiva, certamente vão gerar bons frutos, cidadãos conscientes do seu papel da sociedade, dos direitos e deveres.”.

As próximas ações em salas de aulas pretendem levar ensinamentos sobre identidade. “O que é ser negro, o que é ser indígena, o que é ser minoria, o que é sofrer preconceito, na atual conjuntura, já que estamos na época dos extremos. Às vezes as pessoas não conseguem entender e criam contra-argumentos pra dizer o que é certo e o que é errado, são os extremos que estamos vivendo agora, né?”, reflete Viana.

O Brasil tem a maior população negra do mundo fora do continente africano. De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2019, 46,8% dos brasileiros se declaram pardos e 9,4% se declaram pretos. Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de pardos e pretos constitui a população negra no Brasil, equivalente a 56,2%.

As iniciativas em curso na Escola Municipal Francisco de Paula Brito, se enquadram na Lei 10.639/2003 que tem como objetivo disseminar o ensino da cultura afrodescendente na educação básica no Brasil. Por lei, temas como a cultura africana deveria ser praticada nos currículos da educação básica, tendo em vista uma forma de mitigar o racismo no Brasil, e também apresentar uma grande população de pessoas negras, com também ascendência em África, conhecer um pouco essa cultura tão diversas e encantadora.

“A escola, a educação, a rede, o conhecimento abrem portas, e uma vez abertas, as pessoas podem sonhar com um futuro melhor para si e para todos. Eu sempre vou bater nessa tecla, pois eu vim da escola pública, filho de pobre, neto de escravo, pai semi-analfabeto, mas todo mundo na minha família estudou e mesmo os que não, a gente nunca parou de aprender”, finaliza o diretor Marcelo Viana.

Matéria produzida por colaboradores e supervisionado por Osvaldo Lopes

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