Que tipo de liberdade tem uma pessoa LGBTQIAP+ nas favelas do Brasil? Este é o questionamento que o professor e pós-doutor em antropologia social pela Universidade de Harvard, Moisés Lino e Silva, busca visibilizar ao longo do livro: “Liberalismo Minoritário – Vida Travesti na Favela”. Lançado pela editora Almedina Brasil, recentemente na Livraria Argumento no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, a obra traz um retrato etnográfico queer da Favela da Rocinha.  

O livro, publicado originalmente em inglês pela Universidade de Chicago, em 2022, é fruto de uma pesquisa imersiva realizada na Rocinha, favela localizada na zona sul do Rio, onde o autor morou entre os anos de 2009 até 2012. O estudo debate como as práticas e os discursos liberalistas – corrente política e moral baseada na liberdade, consentimento dos governados e igualdade perante a lei – se configuram no dia a dia das pessoas LGBTQIAP+ nas favelas. 

Isto é: a liberdade de sujeitos privilegiados e titulares de direito, que são geralmente pessoas brancas, adultas e heterossexuais e de classe média, é uma realidade experimentada por minorias marginalizadas no chão das favelas como é a população LGBTQIAP+? 

“Eu saí de Goiás e cheguei na Rocinha. Sempre assisti muito pela televisão [imagens da favela] e tive uma curiosidade imensa de conhecer. Cheguei na parte do Valão [localidade na parte baixa da Rocinha], nas andanças da vida e, encontrei a Natasha, no meio da feira, que acontecia todo domingo no Boiadeiro. Ela brincou comigo e foi muito interessante conhecer e morar perto dela para entender como é essa liberdade [de ser LGBTQIAP+] dentro da favela”, revela o autor Moisés Lino e Silva.

E completa: “Ela me apresentou outras meninas e isso foi uma base muito rica para minha pesquisa, que logo depois, virou este livro”. Natasha Kellem, Sarita Panisset e Deizzy França são as três travestis homenageadas na obra. São as vivências delas que servem como fio condutor para a contação de histórias e análises do cotidiano no morro. 

Ao tornar-se amigo de Natasha, o pesquisador conseguiu captar a essência da travesti, o que foi o pontapé inicial das reflexões do autor. Para ele, a tradução em carne e osso do conceito de “liberalismo minoritário”, evidenciado por Lino e Silva. 

Mas o que é afinal liberalismo minoritário?

No livro, o autor define que o liberalismo normativo promoveu a liberdade de sujeitos privilegiados, titulares de “direitos” (geralmente brancos, adultos, heterossexuais e burgueses), às custas de minorias (crianças, travestis, povos ameríndios, negros e moradores de favela).

Apesar de ser uma das principais sujeito político da pesquisa do autor, infelizmente, Natasha não conseguiu se ver eternizada no livro. Ela morreu em 2011, logo após o período da pesquisa. Porém, Lino dedica a obra para ela e a família.

O Bonde

Moisés que é Professor Adjunto do Departamento de Antropologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também explica que na Rocinha conheceu um grupo grande de pessoas LGBTQIAP+, que se autodenominava “grupo das novinhas” ou “bonde das novinhas”. “Havia cerca de 30 pessoas. Eram adolescentes, algumas até menores e, o que me deixava impressionado e curioso para pesquisar era: como elas se uniam e andavam o morro todo”, conta Lino. 

Segundo ele, algumas se declararam travestis, outras não, “mas havia uma relação de liberdade na favela toda, coisa que não acontecia e nem acontece mais fora desse território. Elas tinham uma postura muito aberta [na favela]”.

Denizzy França, 30 anos, moradora da localidade do Valão, confessa: “eu fiquei um pouco assustada quando Moisés [Lino] falou que estava escrevendo um livro e que nele tinha coisas que a gente vive. Foi uma época ótima e que, infelizmente, não temos mais. Porém, só de saber que temos isso registrado, essas vivências, eu fico muito feliz e louca para ler logo tudo”. 


Pensando nestas liberdades, muitas vezes a interferência do Estado pode acabar limitando mais do que garantindo os direitos e as liberdades das pessoas que moram nas favelas – especialmente as mais marginalizadas, como as LGBTQIAP+-. Logo após o processo de pesquisa de Lino e Silva a Rocinha passou pelo Programa de Aceleração e Crescimento, em 2010, mudando o cotidiano de diversas famílias e a chegada da Unidade de Polícia Pacificadora em 2012 torna cada vez mais diferente o convívio de cada morador. 

“É muito louco pensar que conheci ele e as meninas em 2009. Parece que foi ontem, mas, ao mesmo tempo, é mais louco ainda parar e analisar o quanto de direitos e liberdade na favela a gente perdeu”, opina Sareta Panicety, de 26 anos. 

E lamenta: “A geração de hoje em dia é outra. Isso me deixa pensativa, porque é bom ter um livro que não fala apenas dos corpos violentados como sempre fazem por aí. Mas, é um livro de boas memórias… da nossa adolescência… e a agente aprontava muito nessa Rocinha.” 

Experiências Midiáticas X Realidade

Moisés Lino e Silva,  35 anos, um homem branco, natural de Goiás, e da classe média, acredita que como ele, a maioria dos brasileiros, não têm conhecimento sobre a realidade das favelas no Rio de Janeiro. “Quando comecei minha pesquisa na Rocinha, tinha um conhecimento ínfimo do cotidiano das favelas. Acredito que o mesmo seja verdade para a maioria dos brasileiros de classe média como eu. Tampouco tinha morado no Rio”, explica. 

O goiano conta que, o pouco que sabia sobre favelas, vinha de “experiências midiáticas” consumidas em “notícias ou filmes como Cidade de Deus” que, na opinião dele, “usa uma linguagem documental para retratar a violência extrema com a face ‘verdadeira’ das favelas”. 

Ele conta que conseguiu compreender e trazer algumas nuances sobre as favelas no livro, a partir do conhecimento adquirido por meio de leituras a respeito de justiça social, desenvolvimento, liberalismo e estudos urbanos, que fez durante os anos de estudo de antropologia. 

Mas garante: “nada havia me preparado para as situações que vivi ao me mudar para a Rocinha”. O desejo do antropólogo é que o sucesso do livro possa servir para que todos conheçam “as moradoras da Rocinha sob uma nova ótica”. 

A obra Liberalismo Minoritário mostra como o enfrentamento dos juízos de pobreza e opressão, e os próprios limites da liberdade de um povo marginalizado, reflete a luta por direitos e deveres ainda não avançados dos LGBTQIAP+, mas também de todo morador do chão da favela.  

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