Não é de hoje que a Rocinha chama atenção de diversos artistas. Ao abrir a página do YouTube, maior plataforma de vídeos do mundo, podemos notar a quantidade de videoclipes que usam a favela como cenário. Em uma busca, o Fala Roça contabilizou 17 vídeos gravados completamente ou com cenas feitas na Rocinha entre 2019 e 2021. Somados, eles contabilizam cerca de 253 milhões de visualizações.

Lajes, quadras e becos dão forma a cena para diversos artistas registrarem seus trabalhos, seja para quem está começando na carreira ou para artistas já consagrados como a cantora Ludmilla. Os cenários que o morro oferece agrada o mundo do funk, rap, samba, pagode e até mesmo o gospel. 

O clipe “Tô voando alto”, de MC Poze do Rodo, é o mais assistido da lista. São 80 milhões de visualizações em 1 ano. Parte do clipe mostra imagens aéreas da Rocinha e um grupo descendo com motocicletas de altas cilindradas pela Rua Nova, na localidade Rua 4. O projeto Favela Vive reúne MCs renomados em 4 clipes, sendo 3 deles gravados na Rocinha. Mc Cabelinho, Orochi, Djonga, ADL, MV Bill são alguns dos artistas que circularam pelo morro.

O faturamento de cada vídeo não é revelado. O pagamento no YouTube é feito em dólares baseado na regra de CPM (custo por mil). A cada 1000 views, o dono do canal pode ganhar valores entre 0,25 e 4,50 dólares (no Brasil algo entre 1 e 25 reais). A seguir, você pode ter uma noção de quanto ganha alguns canais que produziram clipes na Rocinha, de acordo com o Social Blade.

Clipes feitos por produtores independentes da Rocinha não tem conseguido decolar nas redes mesmo com apoio externo de produtores e artistas renomados. O morador da Rua 1 e produtor musical Samuel Gomes, o $amuka, avalia que os artistas fazem a música sem desenvolver um planejamento de divulgação, pesquisa de público e entender o algoritmo das plataformas. “Tem que fazer o algoritmo trabalhar a seu favor, caso contrário não rola. As pessoas só pensam no resultado final e não pensam no antes, durante e depois. Não é só fazer e jogar na internet”, analisa $amuka.

Produção local em alta

Salemm, conhecida como Fotogracia, ou até mesmo como “Estética Brasileira”, vem se tornando referência no morro quando o assunto é audiovisual. Constantemente cotada por empresários, produtoras, marcas e artistas, a fotógrafa desenvolve um trabalho que muitas vezes vai além da fotografia por si só. “É muito importante essa visibilidade que a favela tá tendo, os espaços estão se profissionalizando agora, cada vez vai aparecer mais trabalho. Entende? Eu mesmo faço fotografia, guia, edição, já fui modelo em agência. Sei que o mercado audiovisual tem muito lucro, dá muito dinheiro. Quando me procuram (pelas redes sociais) eu ofereço meus serviços, no início apanhei muito pra aprender as coisas, hoje em dia é engraçado que aqui no morro muita gente já me conhece e reconhece meu trabalho” relata. 

Ao ser questionada sobre os preços para alugar estes espaços, ou locação como é chamado no mercado audiovisual, Salemm deixa bem claro sua opinião: “As pessoas precisam entender que se elas pagam por uma diária em estúdio fora do morro elas também precisam pagar quem tá aqui. A laje está sendo usada para aquele clipe ou campanha, porque aqui não é só clipe, muita publicidade tá aparecendo também”. E complementa explicando o quanto esse cenário de fotografia e gravações pode proporcionar a uma pessoa, “Como modelo, já cheguei a fazer trabalhos que sustentaram minha casa por quase 3 meses.”. 

Mototáxi que virou empresário

Leonardo Victor Santana dos Santos, de 31 anos, conhecido como VT, morador do Canal do Valão, na parte baixa do morro, se tornou um importante nome no meio de produções por ter uma laje com visão em 360º da Rocinha. Atualmente é a pessoa mais solicitada quando falamos de gravações. 

VT é mais conhecido pela laje dos clipes do que seu trabalho como mototáxi no morro. A ideia surgiu no início da pandemia quando precisava ajudar na obra da casa de sua mãe, além de um amigo produtor que impulsionou a ideia. “No meio da pandemia eu achei essa forma de ajudar meus pais, tinha o espaço lá, resolvi abrir pra galera. Esse amigo que é produtor abriu minha mente logo no início, trouxe uma galera pra visitar, gostaram e logo foi surgindo outros contatos, tudo boca a boca”, conta.

Salemm e Leonardo Santos, o VT, na laje do empresário na localidade Valão.

Pensando não somente nas pessoas que moram na favela, logo procurou expandir seus conhecimentos e sua rede de contatos para trazer mais pessoas de fora do morro para conhecer o espaço e possíveis trabalhos. Somente há alguns meses é que surgiu a primeira proposta profissional de locação da laje. Até então, VT sediava o local de forma gratuita e amigável. Mas vendo ali uma oportunidade de melhoria para o prédio em que sua mãe mora, ele então decidiu finalmente profissionalizar seu negócio, se tornando assim o empresário que um dia sonhou. 

“Um amigo meu que é cantor, entrou em contato perguntando se poderia usar a laje para um clipe dele, fortaleceu legal, porque a grana me ajudou muito naquele momento e consegui ajudar meus pais, daquele dia em diante vi que era possível e continuei.” afirma Victor. 

Em média, o empresário chega a receber até 4 propostas por semana para uso de sua laje, além das inúmeras visitas pré-agendadas. Com uma procura maior por videoclipes do que fotos o jovem se considera satisfeito, mas ainda busca outros objetivos além dos iniciais, “quero muito terminar a obra para melhorar o prédio, e até mesmo a laje, penso também em ajudar vários projetos sociais aqui do morro. Moro ao lado do Tio Lino, já fui muito ajudado por ele e quero ajudar uma galera aí, ninguém faz nada sozinho.”.

Com agenda quase cheia até janeiro, VT relata entusiasmado suas conquistas  pois “nunca pensei em conhecer o Ronaldinho Gaúcho, por causa dos clipes na minha laje, pude ir até a casa dele, muita honra”. Embora o craque ainda não tenha pisado na laje, apesar de já conhecer seu dono, outras personalidades do hall da fama já circularam pelos becos da favela.

Assine nossa newsletter

Receba por e-mail informações sobre a maior favela do Brasil.

VOCÊ TAMBÉM PODERÁ GOSTAR

Gravações da série ‘Arcanjo Renegado’, da Globo, assusta moradores da Rocinha

Dona Rosineide espera pacientemente o sinal de um homem de camisa preta,…

‘Arep – Operação Rocinha’ estreia em plataformas e TV por assinatura

Em 93 minutos, o filme “Arep – Operação Rocinha” conta a história…

Da Rocinha para o rap, a vida de MC Oz

Dizer o que tem que ser dito através da música. É assim…

“Diz que é cria, mas”: moradores da Rocinha relembram os bons tempos da favela

Uma nova brincadeira tem agitado as redes sociais em todo o país.…