Nas redes sociais, é comum viralizar vídeos de moradores da Rocinha compartilhando o perrengue nos transportes que circulam no morro, principalmente o caos do engarrafamento na Estrada da Gávea. Essa movimentação – ou a falta dela – é recorrente devido a proprietários de carros e motos fazerem da rua um estacionamento diário.

“É meus amigos, isso aqui é a Rocinha! Olha o trânsito! Tá na Índia não parceiro, tá aqui ó [No morro]”, mostra Danrley Ferreira, de 25 anos, nas redes sociais enquanto passa a pé pela Curva do S congestionada. A situação não apenas dificulta o fluxo normal do tráfego, mas evidencia a necessidade urgente de melhorias para a mobilidade na Rocinha.

Os engarrafamentos na Rocinha são mais constantes nos horários de pico, por volta de 12h, ou no final da tarde, às 17/18h. Porém, com carros e motos estacionados na rua, os congestionamentos podem ocorrer em qualquer hora do dia. “Já escutei relatos de amigos que ficaram uma hora parados no trânsito só para atravessar a Rocinha”, conta Fabiano Escrevante, de 49 anos, motorista da linha de ônibus 539.

O uso da rua como estacionamento é proibido na Estrada da Gávea, das 7h às 19h. Porém, a norma não é seguida pelos moradores proprietários de veículos, sejam carros ou motos. Segundo a Lei de Acesso à Informação, entre 2013 a 2023, mais de 600 veículos foram removidos em ações de ordenamento urbano na Estrada da Gávea.

Em 2023, foram realizadas 25 ações para combater o estacionamento irregular na Estrada da Gávea, com duas ações por mês em média, segundo a Lei de Acesso à Informação. Porém, as operações realizadas pela Prefeitura do Rio, com uso de reboque e aplicação de multa, não resolvem o problema dos engarrafamentos.

Engarrafamento na Estrada da Gávea. Foto: Karen Fontoura
Engarrafamento na Estrada da Gávea. Foto: Karen Fontoura

Há solução?

Segundo a urbanista Ruth Jurberg, que trabalhou no PAC e no planejamento do Comunidade e Cidade, os projetos para melhorar a mobilidade urbana existem, mas faltam recursos para retomar esses projetos. No entanto, ela admite que: “Nunca pensamos em uma área de estacionamento para veículos próprios ou mesmo para as vans que fazem serviços de transporte alternativos”.

“A comunidade é maior do que muitas cidades brasileiras que têm planos de mobilidade e que são respeitados e seguidos”, exemplifica a arquiteta e urbanista, Ruth Jurberg, de 61 anos, que atua há 40 anos com projetos de urbanização de favelas.

E questiona: “Por que a Rocinha, um bairro onde a população é mais vulnerável e precisa mais do apoio do poder público, não pode receber esses investimentos para essa melhoria da mobilidade, do saneamento e da eliminação dos riscos?”.

A escassez de garagens privadas capazes de acomodar a quantidade de veículos na Rocinha é um fator significativo que contribui para o estacionamento irregular nas ruas. Diante desse cenário, a equipe da administração regional está empenhada em buscar alternativas viáveis para oferecer aos proprietários de veículos.

“As escolas poderiam ceder um espaço para os veículos ficarem estacionados durante o pernoite, e, de certa forma, o proprietário poderia colaborar com a escola, seja em questões sociais ou na reforma de uma sala, um valor simbólico. Aproveitando que a escola fica sem aula à noite”, sugere Wallace Pereira, de 49 anos e gestor executivo local da Rocinha, sobre uma das soluções pensadas, que seria levada para uma conversa com a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP).

E os moradores, o que pensam?

O valor médio de um estacionamento para carros na Rocinha custa R$300. Já para motos varia entre R$70 e R$150. No censo demográfico de 2010, a renda média dos moradores da Rocinha era de R$433. Pagar por uma vaga privada em um estacionamento vem se tornando inviável para os moradores, que majoritariamente já arcam do financiamento do veículo, além das despesas com aluguel e alimentação.

“Sobre o trânsito, em geral, tô achando pior. O número de motos circulando parece aumentar cada vez mais, aumentando o trânsito também ocasionado pelos estacionamentos em excesso em ruas estreitas e curvas”, opina Bia Vasconcelos, de 21 anos, moradora da Rua 2.

A criação de uma garagem pública com o preço mais acessível para a população da Rocinha, pode ser uma das soluções para melhorar a circulação de veículos na Estrada da Gávea.

Mas, para moradores, o uso de veículos de ônibus do tamanho padrão (12m), também colabora para os congestionamentos. “Atrapalha um bocado os carro e a moto [estacionados], mas o que atrapalha mais é o do ônibus grande da escola”, explica Fabiano Escrevante, 49 anos.

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