Na Rocinha, desde a fundação da Escola Municipal Francisco de Paula Brito, criada em 1971, até os projetos de educação comunitária, que crescem em números nos dias de hoje, os moradores da Rocinha ainda enfrentam dificuldades para encontrar vagas na rede pública de ensino.

Os jovens são ainda mais prejudicados porque só há um colégio público de ensino médio que atende a região da Rocinha, mas é localizado em São Conrado: o CIEP Ayrton Senna da Silva, ao lado do Complexo Esportivo da Rocinha. Como e onde os jovens da Rocinha conseguem estudar para concluir a formação de nível médio exigida pelo Ministério da Educação para acessar as faculdades públicas do Rio?

O Censo Demográfico 2010, feito pelo IBGE, registrou 6 mil jovens na Rocinha com idade entre 15 a 19 anos. Atualmente, o número de jovens é desconhecido. 

Denise da Silva, aluna do 2º ano do ensino médio, conta que precisou trocar de escola e teve dificuldade de acesso. “Eu fiz o ensino fundamental em outra escola. Vim estudar aqui porque era mais perto da minha casa e eu estudava de noite. Estudar no CIEP com aula de tarde e perto de casa foi melhor para mim e para minha mãe”.

De acordo com o diretor do CIEP, João Timbó, as vagas de escolas de ensino médio próximas à Rocinha são um problema estrutural da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC). Ele explica que tem a capacidade de ter 54 turmas, mas apenas 42 turmas são abertas anualmente pela SEEDUC durante o período de matrícula escolar devido a falta de liberação de verba.

“A gente fica pedindo todo ano para SEEDUC para abrir novas vagas e seria necessário contratar novos professores para atender essas novas entradas, mas talvez esse seja o maior impedimento para SEEDUC”, argumenta Timbó.

Entrada do colégio próximo a Passarela da Rocinha. Foto: Osvaldo Lopes

De acordo com Timbó, já houve a proposta de fazer um planejamento “de quantas pessoas estão buscando a entrada na escola para informar o órgão antes da liberação das vagas” para atender a demanda. 

Próximo a Rocinha, existem outros colégios públicos de ensino médio, são eles: o C.E. Professor Antonio Maria Teixeira Filho, no Leblon; o C.E. Andre Maurois; C. E. Ignacio Azevedo do Amaral e mais duas unidades em Copacabana.

Em paralelo ao acesso ao ensino médio público, o Projeto de Ensino Cultural e Educação Popular (PECEP) vem ajudando os estudantes da Rocinha. A ideia surgiu dos estudantes da Escola Parque da Gávea, em 1993, após o sequestro do ônibus 174, que gerou a morte de uma professora no Jardim Botânico. 

Ao longo dos anos, o PECEP cresceu e, ao contrário da Secretaria Estadual de Educação, adaptou-se para conseguir encaixar cada vez mais alunos. Atualmente, são 130 pessoas entre os diretores, professores e voluntários que ajudam no funcionamento do projeto. 

Pedro Arthur Lauria, diretor do projeto, afirma que com a estrutura da Escola Parque é mais fácil arranjar professores e voluntários devido às boas condições de ensino, além da boa localização, que é próxima da Rocinha, mas fora da comunidade. 

“Se você quiser ser professor de história do Pecep vou ter que pedir para você entrar na fila. Eu posso pegar trinta currículos de professores de história, jogar pra cima e escolher um que com certeza só vão ter os melhores”, conta. Mesmo assim, o projeto sofre com a falta de voluntários para ministrar aulas em algumas disciplinas durante o ano.

“Agora, professor de inglês não tinha nenhum. A gente estava quase pagando [para não deixar os alunos sem]. Não conseguia mesmo. Se para gente é difícil dentro dessa estrutura, para as outras [escolas e projetos] também são e, para os outros pré-vestibulares, é mais ainda”, revela.

Rocinha nas universidades

Hoje, a taxa de aprovação de estudantes oriundos do Projeto de Ensino Cultural e Educação Popular já chega a 85% no terceiro ano cursado pelos alunos. O dado mostra como o Ensino Médio oferecido nas escolas públicas dos arredores da Rocinha é de baixa qualidade, uma vez que o projeto acaba funcionando, na prática, quase como  um “novo ensino médio”. Majoritariamente, somente após três anos, os estudantes conseguem ser aprovados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou conquistarem uma vaga com bolsa de estudos em universidades privadas ou ainda, entrarem em universidade públicas estaduais.   

O ex-aluno do vestibular comunitário João Victor Pessanha, que cursa direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), é exemplo. “Estudei dois anos no PECE, que encontrei através de um amigo, que já cursava”. Ele conta que o reforço do projeto faz a diferença na vida dos estudantes da Rocinha matriculados na rede pública carioca.

Mas, ainda que projetos comunitários de educação popular apoiem os jovens do Morro no acesso à universidade, tanto diretores do Ciep Ayrton Senna quanto do PECEP, acreditam que: a principal luta deve ser a reivindicação de mais vagas nas escolas e a manutenção da permanência dos alunos durante todo o ano letivo. 

Eles também avaliam que, métodos mais criativos que dialoguem mais com o social, devem fazer parte da formação do ensino médio, pois geram um maior engajamento dos estudantes. De acordo com João Timbó, “alinha tanto o valor interativo e cultural” quanto “a qualidade e necessidades singulares” apresentados no Pecep, já mostraram que trazem resultados positivos.

*Conteúdo produzido pelos estudantes João Guilherme Palmer, Pedro Lissovsky e Rafaela Fragoso através da parceria do Fala Roça com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio

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