Há cerca de dois meses agentes culturais formados percorrem becos e vielas em busca de iniciativas culturais em todo território da Rocinha. “A ideia é mapear o cenário cultural da Rocinha pós-pandemia, produzindo um recorte cultural das iniciativas”, afirma Michel Silva, editor do Fala Roça.

O projeto é uma ação do jornal que vai lançar até o final de junho o novo mapeamento cultural da Rocinha, com objetivo de reafirmar o que é cultura para a favela. Mas, agora, partindo do olhar plural dos moradores do morro para a cidade do Rio de Janeiro.

“Em 2016, o que fizemos foi um levantamento jornalístico. Eu não tinha clareza do que era cultura e estava sozinho com toda a pesquisa. Então, além de iniciativas de esporte e ações culturais, também inclui manifestações religiosas. Não tínhamos uma metodologia ou definição que mostrasse o que era a cultura”, explica Michel.  

Para isso, o jornal formou uma equipe com três agentes culturais e realizou uma oficina de produção cultural, com a participação de Ricardo Fernandes, cria da Cidade de Deus e diretor do Instituto Arteiros, que bateu um papo sobre cultura e favela.

Com duração de três dias, a capacitação também contou com Fernando Gomes, morador da Rocinha e estudante de Geografia na PUC-Rio, mostrou ferramentas e aplicativos para serem usados no trabalho em campo. Além do ex-agente de saúde Gilliard Barreto, que fez um troca com a equipe sobre suas experiências de circulação no território.

Responsável pelo mapeamento das iniciativas culturais na parte baixa da Rocinha, Leony Vidal, de 32 anos, explica que, apesar de “trabalhar com cultura há muito tempo”, nunca tinha se deparado “com a tarefa de catalogar ações culturais”.

Segundo ele, foi “através da oficina percebi que temos uma visão muito pequena do que seja cultura. Na favela, por exemplo, as caixas d’água azuis nas lajes fazem parte de uma estética que só encontramos aqui. Por isso, é a cultura de um povo”.

Leony Vidal registrando uma iniciativa cultural pelo celular, principal ferramenta do agente mapeador. Fotos: Renato Errejota

Ele também revela que não se surpreendeu com a “grandiosidade da quantidade de ações culturais” feitas por moradores em resposta às faltas do Estado. “A favela é acostumada a se mover, criar e suprir as ausências. A favela sempre cria dentro dessas brechas que o estado deixa dentro das favelas, seja uma creche comunitária, uma aula de música ou de algum esporte”, afirma Vidal

Surpresa mesmo ele teve ao descobrir que, o bar da memória da adolescência “onde os coroas do Morro iam pra jogar sinuca e carteado”, hoje, abriga um projeto de aulas de jiu jitsu. E quem dá as aulas é um amigo dele do ensino médio. “Se esse meu amigo não falasse sobre essa ação, eu nunca ia imaginar que ali existia uma ação cultural”, revela Vidal.  

 Pesquisa de formiguinha…

O relato do agente ilustra uma das principais metodologias adotadas no processo do mapeamento para descobrir as iniciativas culturais do morro: a curadoria do boca a boca. Trata-se de uma troca entre vizinhos, um bate papo entre os agentes culturais e os moradores. É por isso que todos os agentes que participaram da pesquisa são crias e moradores da Rocinha.

Feita essa etapa, os agentes vão até o local, checam se o projeto cultural está funcionando. Um trabalho de formiguinha em campo que “não foi moleza”, garante a agente cultural Adrielly Ramos, de 25 anos. Mas, que foi “muito gratificante” e serviu de aprendizado.

Caminhadas pelo morro revelam diversidade de projetos culturais na Rocinha.

“Percebi que ao chegar nas pessoas, primeiro, precisava explicar toda história por trás do projeto do mapeamento, sua importância e o porquê da ação. Era preciso dar um gás, porque as pessoas estão desacreditadas de tudo. A maioria não tem financiamento da prefeitura ou do estado e dependem de bingos e apoios comunitários da própria comunidade”.

Além de checar a localidade da iniciativa cultural, os agentes do Fala Roça também entrevistaram o responsável e/ou integrante da ação. A partir de um formulário com 11 perguntas, eles mapeiam se a iniciativa é popular, privada ou tem apoio de órgãos públicos e para qual público-alvo é destinada.  

Jéssica Regina da Silva, de 31 anos, ressalta que se surpreendeu com a descoberta de iniciativas que nunca tinha ouvido falar. “No Pontão Vermelho tem vários projetos que eu nem sabia que existiam aqui na Rocinha. Eu morando morro desde de sempre nunca tive contato”, ressalta Jéssica

 Nova gestão

A proposta do novo mapeamento da cultura da Rocinha é justamente levar informação para os moradores sobre o cenário cultural existente no morro, mas também colocar as ações culturais no mapa da cidade do Rio para dentro e fora da internet. O projeto vai atualizar o Mapa Cultural da Rocinha elaborado em 2016. Porém, em uma situação bem diferente.

 Há seis anos atrás, o Fala Roça mapeou mais de 100 pontos de práticas culturais, como centros sociais, espaços educativos e áreas de lazer na Rocinha para protestar contra a exclusão da favela dos mapas oficiais da cidade do Rio de Janeiro no Google. A “remoção virtual” das favelas feita pela plataforma atendeu um pedido da Prefeitura do Rio, em decorrência da cidade sediar dois megaeventos: a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016).

De lá pra cá, algumas coisas mudaram. As favelas voltaram para o mapa da cidade no Google faz tempo e o prefeito da cidade, voltou a ser o mesmo: Eduardo Paes. Só que agora, a oportunidade de realizar o novo mapeamento e colocar mais ações culturais da Rocinha no mapa, surgiu a partir do apoio da Prefeitura do Rio.

Por meio de edital do Programa de Fomento Carioca (Foca), a Secretaria Municipal de Cultura vem acolhendo iniciativas nas favelas e dando suporte financeiro a projetos como o Mapa Cultural da Rocinha.

“Hoje você tem outra equipe na Secretaria Municipal de Cultura. Acredito que houve uma evolução da percepção do que é a favela e, portanto, sobre o que é a expressão da cultura no Rio de Janeiro”, opina Michel Silva, editor do jornal Fala Roça.

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