Na entrada da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Conrado, uma placa discreta na cor branca sinaliza que ali funciona um centro de imagem onde está instalado um tomógrafo.

É confuso saber se as pessoas circulando no terreno estão indo para a igreja ou caminhando em direção ao centro de imagem nos fundos do pátio do templo religioso.

A Prefeitura do Rio disse ao Fala Roça que “o espaço funciona 24 horas por dia, com 20 profissionais, sendo 3 por plantão, atuando na realização dos exames de tomografia agendados pelas unidades de Atenção Primária”. 

“O aparelho instalado no local já realizou 898 exames desde o dia 22 de junho”, informou a prefeitura através da Secretaria Municipal de Saúde, sem ressaltar que muitos pacientes encaminhados foram examinados por motivos clínicos não relacionados a covid-19.

Quem precisa utilizar o tomógrafo não pode ir até o local sem pedido médico da rede pública. O agendamento é feito pelo Sistema de Regulação do município (SISREG). Os pacientes com suspeitas de covid-19 vão a pé, exceto os que se encontram hospitalizados. 

Centro de Imagem nos fundos do terreno da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Conrado. Foto: Michel Silva

Em maio deste ano o Conselho Municipal de Saúde repudiou a instalação do tomógrafo na igreja durante uma reunião virtual. “Trata-se de um equipamento importante para o cuidado aos pacientes contaminados pelo COVID-19 com sinais de gravidade e que deve estar sob coordenação dos equipamentos de saúde do local, sobretudo a UPA. O caso se torna mais grave pelo fato da Igreja citada ter ligações diretas com o Prefeito da cidade. O Estado é laico. O SUS é público”, disse um membro do conselho.

Obras emergenciais

No portal de transparência do município, o Contas Rio, mostra que o Centro de Imagens da Rocinha foi erguido pela construtora Irmãos Haddad a partir de um pacote de obras emergenciais no valor de R$ 10,5 milhões, que também incluiu outros centros de imagens em Bangu, Del Castilho, Santa Cruz, Campo Grande, Cidade de Deus e Pavuna. 

Essa é uma das 4 obras feitas pela construtora sem licitação na capital fluminense. Obras sem licitação e compras de bens e serviços destinados ao enfrentamento do coronavírus estão amparadas na Medida Provisória 926/20.

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, justificou a colocação do tomógrafo na Igreja Universal porque a UPA da Rocinha não tem a instalação elétrica adequada para o equipamento, além de dizer que se colocasse o tomógrafo na UPA, as pessoas de classe média que moram em São Conrado não subiriam o morro para fazer tomografia.

Embora as autoridades de saúde afirmem que o tomógrafo foi instalado para combater a covid-19 na Rocinha, a tomografia não é o exame de primeira escolha para diagnóstico do vírus.

Impeachment em ano eleitoral

Em setembro deste ano, Crivella escapou de mais um pedido de impeachment no qual era acusado de incentivar servidores públicos a dificultarem reportagens sobre a situação da saúde pública no município do Rio. O caso ficou conhecido como “Guardiões do Crivella”. Esse foi o 4º pedido de impeachment contra o prefeito. Apenas um deles foi aceito – mas encerrado sem o afastamento de Crivella.

Vereadores e advogados acompanharam de perto a instalação do tomógrafo no terreno da igreja evangélica. Com base nas informações da vereadora Teresa Bergher (Cidadania), o Promotor de Justiça Eleitoral, Rogério Pacheco Alves, instaurou um procedimento preparatório eleitoral (PPE) para cobrar explicações de Crivella sobre o tomógrafo e avaliar se houve supostos crimes de abuso de poder político e econômico.

Os vereadores Paulo Pinheiro e Tarcísio Motta, ambos do Psol, também protocolaram uma representação no Ministério Público. Para eles, há um fortes indícios de improbidade administrativa, violação aos princípios constitucionais da moralidade, da impessoalidade e da laicidade do estado pela Prefeitura do Rio e autoridades do Poder Executivo.

Em resposta ao MPRJ, a coordenadora de saúde da AP 2.1, Iracema Taveres Mourão Rangel, informou apenas que o tomógrafo começou a funcionar no dia 23 de junho e os exames são feitos através do SISREG.

A 15 dias das eleições municipais, os casos seguem sendo apurados pelo Ministério Público, sem previsão de julgamento.

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