Metade dos pedidos por delivery registrados por dois restaurantes de comida japonesa na Rocinha, localizados na Via Ápia e Boiadeiro, não tinham becos e vielas do morro como destino. Mas, casas e apartamentos situados em bairros nobres nos arredores da favela, como Leblon, Gávea e São Conrado. 

O crescimento das vendas por delivery dentro da Rocinha  – e de outras favelas do Rio de Janeiro – foi impulsionado nos últimos dois anos pela pandemia da Covid-19. Na Rocinha, a metade dos pedidos feitos em dois restaurantes vão para fora do morro. 

Um deles, o restaurante 99 Sushi, localizado na parte alta da Rocinha, já chegou a atender 250 pedidos em um único dia em 2022. Sendo que 50 pedidos eram para fora do morro. A média normal de clientes é de 160 pessoas, mas com a procura dos serviços por bairros vizinhos, a média de vendas está aumentando cada vez mais.

Segundo Marcos Silva, o gerente do 99 Sushi, 50% dos pedidos de delivery que o restaurante recebe atualmente são para fora da Rocinha. Os moradores do Vidigal, favela vizinha, também são uma clientela bastante fiel do restaurante. Ainda, são registrados em menor número os pedidos para bairros mais distantes da Rocinha como Jardim Botânico, Ipanema e Copacabana. 

A maior dificuldade do 99 Sushi é cumprir as entregas rapidamente nos bairros vizinhos da zona sul devido a distância. A demora, segundo Silva, vem gerando  insatisfação dos clientes.  “O cliente tem que entender que, muitas vezes, não é culpa do restaurante, mas sim de uma procura alta em determinado momento do dia e com pedidos para serem entregues para grandes distâncias”, explica. 

Variedade de pratos é encontrado em muitos restaurantes japoneses da Rocinha. Foto: Reprodução/99Sushi

O Brasil conta hoje com mais de 3000 restaurantes japoneses, segundo a Associação de Restauradores Gastronômicos das Américas (Aregala). Na Rocinha há entre 8 a 15 estabelecimentos de comida japonesa.

O gerente de outro restaurante da Rocinha – que pediu para não ser identificado – confirmou a tendência de moradores das regiões nobres da zona sul consumirem comida japonesa vinda direto da favela. 

O gerente relata enfrentar as mesmas dificuldades do 99 Sushi em relação a agilidade na entrega para bairros vizinhos. “O hot filadélfia, por exemplo, que é uma peça servida quente e muito procurada, muitas vezes, não chega do jeito que o cliente espera”, afirma.

Roberto da Silva dos Santos, 32 anos, morador de Ipanema, é cliente do 99 Sushi há quase dois anos. Ele conta que conheceu o estabelecimento através de um amigo que mora em São Conrado. Para ele, o destaque do restaurante é a qualidade e o atendimento. 

Por conta do trabalho, muitas vezes, Roberto não consegue ir ao restaurante devido à distância, mas ele afirma que sempre faz pedido pelo delivery. “É um preço bem menor do que os restaurantes daqui de Ipanema com uma qualidade similar. Por isso, sempre opto por pedir comida japonesa na Rocinha”.

Pesquisa realizada pelos institutos Data Favela e Locomotiva em 2019, já revelou que moradores das favelas brasileiras movimentam R$119,8 bilhões por ano. O tamanho populacional da Rocinha – estimado em 180 mil habitantes, de acordo com a associação de moradores – torna a favela maior do que 92% dos municípios fluminenses, segundo o último censo do IBGE. 

Em entrevista ao Extra, Fernando Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, afirmou que “o empreendedorismo da favela gera um círculo virtuoso dentro da comunidade por fazer o recurso circular ali dentro”. Quando o mercado das favelas passa a ser consumido também por moradores de outros bairros, o potencial econômico das favelas é aquecido e se expande.

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