Já se passavam 14 dias quando Reginaldo Freitas, 37 anos, mandou uma mensagem no grupo do WhatsApp, sugerindo que os moradores da Cachopa dividissem a conta para comprar uma bomba hidráulica. Falta de água na casa dele é rotina e não acaso, assim como em outras localidades da Rocinha.

Quem não tem bomba hidráulica, precisa recorrer às bicas públicas espalhadas no morro. Geralmente, são torneiras que ninguém sabe de onde vem à água, nem a qualidade dela. “Eu uso essa água para lavar roupas, tomar banho e esquento ela no fogão para usar para cozinhar”, diz Reginaldo Freitas, enquanto enche um galão de 20 litros na bica da Vila Verde.

Existem 3 reservatórios de água na Rocinha. Segundo o governo do estado, a ideia é construir mais 4 reservatórios através do programa Comunidade Cidade, para enfim universalizar o acesso à água na favela até 2025.

Em alguns locais, a água das bicas é captada da Floresta da Tijuca. É o caso da bica do Laboriaux. Outras bicas são abastecidas pela Cedae.

Morador recorre a uma bica no Laboriaux, localidade mais alta da Rocinha, para pegar água. Foto: Eduardo Herculano

A diretora Marussia Whattely, do Instituto Água e Saneamento, alerta que embora a água que abastece a Rocinha é a mesma que abastece o Leblon, o líquido pode perder qualidade se o sistema não for implantado corretamente.

“Pelo fato da omissão do estado e da prefeitura de deixar nas mãos das pessoas para elas resolverem o problema, você está mais sujeito a risco por conta da qualidade da água”, explica Marussia Whately, diretora do Instituto Água e Saneamento.

Ainda hoje, existe um funcionário da Cedae responsável por manobrar e distribuir para as localidades dentro do morro. Uma profissão dos tempos de Dom Pedro II. Em outros bairros, o abastecimento de água é pressurizado de forma automática.

Segundo o arquiteto e urbanista Luiz Carlos Toledo, o poder público trata a favela com desigualdade. “Com mais de 120 mil habitantes que sofrem com a irregularidade do sistema de abastecimento de água. Está mais do que na hora da Rocinha receber um abastecimento de qualidade”, enfatiza.

Origem das bicas públicas

Nos anos 80, moradores realizaram várias manifestações cobrando a Cedae para fazer as ligações de água diretamente nas moradias. No livro ‘Varal de Lembranças’, o morador Paulo Sérgio Farias, relata: “Compreendíamos que o alto índice de hepatites, diarreias, infecções intestinais nas crianças eram provenientes da água contaminada, do contato com as valas poluidíssimas. Era necessário para pôr fim a toda aquela desgraça que ameaçava, e que ainda ameaça a saúde dos moradores.”.

Em julho de 1982, a Cedae inaugurou um sistema de bicas públicas. Mas, não era isso que os moradores queriam. No dia da inauguração, foi possível ouvir um coro: “Chega de lata d’água na cabeça! Água na torneira na rua não adianta, queremos água na bica da cozinha!”, conta Farias no livro.

Quase 40 anos se passaram. O ano é 2020 e o abastecimento na Rocinha ainda não é 100%. A lata d’água na cabeça de Marias, Josés, Reginaldos e tantos outros, persiste.

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