Griot são contadores de histórias, guardiões de tradições culturais que repassam para as gerações futuras da África Ocidental. São vários os griots brasileiros, como Abdias Nascimento e Conceição Evaristo. Outra história vem sendo escrita e contada por uma mulher negra, cria da Rocinha e com plena consciência de sua missão: Samantha Silva de Almeida, 41 anos, diretora de criação e conteúdo da Globo. 

Antes de ganhar diversos prêmios e inspirar novas formas de comunicação, a cria da Rua 2, na parte alta da Rocinha, percorreu muitos caminhos. Em conversa com o Fala Roça nos Estúdios Globo, Samantha Almeida fala sobre suas vivências, o que existe por trás de cada escolha profissional, a construção de conexões por meio da comunicação e os paralelos, muitos deles bem diretos, entre mercado de trabalho e sociedade além das memórias que carrega sobre a Rocinha até a chegada a elite da comunicação brasileira.

A executiva ocupa desde 2021 o cargo de diretora de criação e conteúdo dos Estúdios Globo, responsável por estimular a produção na área de entretenimento e por gerir equipes de autores, pesquisadores e produtores de conteúdo. Antes de chegar à Globo esteve em empresas ligadas à moda e cosméticos, como Levi ‘s, Avon, Trifil, e foi diretora no Twitter Next Brasil e head de música e entretenimento da Music2/Mynd. 

Samantha teve seu trabalho reconhecido algumas vezes mundo afora, como no último prêmio Caboré na categoria profissional de inovação do ano de 2021. Já em 2020, chegou a integrar a lista de 100 pessoas de descendência africana mais influentes do mundo, abaixo dos 40 anos, de acordo com a ONU. Também foi a única brasileira entre os jurados do festival de Cannes Lions em 2021, na categoria entretenimento. 

Conhecida por ser um reduto nordestino, a família Silva Almeida é do tempo em que a Rocinha era uma roça. Naturais de São Lourenço (MG), a avó, a mãe e o tio de Samantha vieram para o Rio em busca de uma nova vida. As conquistas profissionais contrastam com a infância nos becos e vielas da Rocinha nos anos 80.

“Eu tive diferentes experiências no mesmo lugar, se você pensar sobre estrutura onde eu cresci na Rocinha não era uma boa experiência naquela época, morando de frente para uma vala, faltando água, banheiro fora de casa e apenas eu e minha mãe naquela situação. Enquanto a estrutura era precária, o saneamento já não era bom naquela época. Porém, fui a criança mais feliz naqueles becos, estava perto das minhas primas, tias, e uma relação familiar muito boa e com ótimos vizinhos.”. 

Em 1996, fortes chuvas castigaram o estado do Rio de Janeiro. Mais de 40 pessoas morreram na cidade do Rio. Na Rocinha, cerca de 4 moradores morreram em desabamentos. Com 13 anos de idade, a família de Samantha se mudou para São Paulo após ter a casa atingida pela enchente.

Quem sempre acreditou na jovem foi sua mãe Tânia Silva, espelho para se tornar a mulher que é hoje. “A minha mãe era visionária, me colocou em vários cursos, ela projetou a vida que tenho hoje. Nunca tivemos roupas caras, casa reformada, tínhamos o básico porque ela sabia que o investimento certo sempre foi a escola e uma boa educação. Tudo que era de graça ou dava bolsa ela me colocava, sou fruto de projetos sociais, bolsista, tudo isso que hoje uma galera fala eu tive formação com isso tudo.”, lembra Almeida. 

Estar ou não dentro da favela foi um local de escolha que dona Tânia mostrou logo cedo para sua filha, ter direito à escolha em uma época em que as oportunidades ainda eram poucas. “Você nasce em um lugar que determina a sua posição social, no gênero que determina sua fragilidade, em uma situação financeira que determina até onde você vai desenvolver seus potenciais e também quais oportunidades vão chegar até você ou não.”.

Samantha recebeu o Fala Roça nos Estúdios Globo para apresentar toda estrutura, projetos e entrevista.
Foto: Osvaldo Lopes/ Fala Roça

Sorridente e comunicativa, a jornada de Samantha é o mapa da jornada dos pais. Curiosamente, o pai da diretora, Rogério Almeida, foi funcionário dos Estúdios Globo por anos, através do programa Jovem Aprendiz e levava a filha para acompanhar os bastidores das produções televisivas. 

“Na Globo, me apaixonei pelo universo da criação e da comunicação. Isso definitivamente impactou o meu imaginário e deixou dentro de mim a vontade de fazer parte dessa fábrica de criar sonhos. Sonhos de uma garota negra, criada na favela da favela, filha de eletricista.”

Rótulos costumam invisibilizar pessoas que abriram mãos de sonhos. Ser a primeira pessoa da família a ter um curso superior é motivo de alegria e ódio para a diretora de criação. “Odeio quando rotulam ‘a primeira pessoa a fazer tal coisa’ parece um lastro, parece que vim de lugar nenhum, tipo filha de chocadeira, eu não sou a primeira a fazer uma coisa, a história vem do momento em que minha avó decide sair de um estado de violência profunda da morte de sete filhos e decide vir para o Rio de Janeiro tentar sobreviver.”, destaca ela, que acredita no crescimento em rede ao invés de uma ascensão em pirâmide.

Subverter a lógica das coisas tem sido a assinatura por onde passa. O machismo, racismo e meritocracia a acompanham desde a infância e como lidar é outra “parada”. “Às vezes nos lugares onde estou com meu time de trabalho, sou servida somente por pessoas negras, quando na real eu queria elas sentadas comigo ou em cargos iguais ao que estou, fico incomodada”, comenta. 

Em um mundo hiperconectado, Samantha dá dicas para que a nova geração possa ocupar mais lugares como o dela. Andar em grupo, construir redes e sem andar sozinha. “Uma combinação de situações e fatores externos é que colocam cada pessoa no lugar que deve estar, basta estar bem preparada para exercer isso, ao saber disso você está de igual para igual com qualquer uma. Esperança ativa, gosto de sonhar e realizar tudo, sonhar grande também dá pra fazer.”.

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