Com um brilho nos olhos e um sorriso solto, a empolgação do fotógrafo Bruno Itan, 35 anos e morador do 99, parte alta da Rocinha, é visível. Ele compartilha a ansiedade enquanto treina a assinatura que marcará os exemplares do primeiro livro publicado. Ao folhear as páginas de ‘Olhar Complexo’, o mais recente trabalho, ele revela orgulhosamente a página preta que irá acomodar a assinatura no lançamento do livro na Livraria Travessa, do Shopping Leblon.

“Estou pensando em levar uma caneta prateada e assinar aqui!”, mostra o fotógrafo, o lugar reservado para as dedicatórias. Ele detalha que a cor da caneta é para destacar na folha preta e embelezar ainda mais a obra. Para Itan, cada livro será uma peça única, carregada com a perspectiva das lentes do artista, que capta a essência positiva das favelas cariocas. 

Para Bruno, a publicação do fotolivro é “um sonho realizado”, que “eu nunca imaginei” e irá eternizar a trajetória do trabalho artístico que tem vivido há 16 anos, em diferentes favelas, como Rocinha, Complexo do Alemão e Jacarezinho. 

Bruno Itan tirando fotos da favela da Rocinha na Sede do Fala Roça. Fotos: Karen Fontoura

A arte começou a ganhar forma definitiva na vida de Bruno, quando ele tinha 19 anos, ao tomar conhecimento de um curso gratuito de fotografia que seria ministrado no Complexo do Alemão. “Cara, você que fica igual um maluco aí tirando foto de tudo, vai lá nesse curso, você vai gostar!” relembra Bruno, aos risos, pela forma que foi encorajado pelos amigos que conheciam o passatempo do jovem, desde a adolescência.

E conta do momento que começou a frequentar o curso: “Eu me lembro até hoje de quando eu toquei na câmera pela primeira vez, eu falei é isso aqui que eu quero fazer! Ali eu desenvolvi um sonho que era se tornar um fotógrafo”, diz Itan, emocionado ao recordar a trajetória. 

No início de sua jornada na fotografia, Bruno enfrentou desafios significativos. Ele teve que conquistar a confiança dos moradores, que estavam acostumados a serem retratados de forma negativa por visitantes que tiravam fotos das favelas sem compreender a realidade, destacando apenas os aspectos negativos.

Bruno estava determinado a mudar essa narrativa, buscando retratar a favela de maneira autêntica e positiva. “A arma que eu tenho para mudar o mundo é a minha câmera”, explica o fotógrafo, que desenvolveu diversos trabalhos, que explorava a vivacidade das favelas onde percorre até hoje.  

Raízes nordestinas e os novos horizontes no Rio de Janeiro

Morador da Rocinha há um ano, Bruno nasceu em Recife, Pernambuco, e chegou ao Rio de Janeiro ainda criança, com cerca de 10 anos, acompanhado pela mãe em busca de novas oportunidades. O convite veio da tia, que já residia no Complexo do Alemão: “Foi um choque de realidade”, relembra Bruno. A mãe dele não conseguiu se adaptar e retornou para cidade natal, enquanto o garoto decidiu morar com a tia. 

Ao vivenciar o cotidiano do Complexo do Alemão, percebeu detalhes que despertavam a atenção e admiração: “Eu via beleza nos lugares que eu passava”, relata Bruno. Ainda jovem, compartilhava as percepções com as pessoas que convivia e tentava transmitir o que enxergava sobre particularidades da favela. Porém, o ponto de vista do jovem era incompreendido pelos outros e se questionava: “Será que só eu estou enxergando isso?”.

De acordo com fotógrafo, na época, as perspectivas de vida eram limitadas e não tinha sonhos, até pela falta de representatividade familiar de pessoas que estudaram, fizeram faculdade e estavam em carreiras que poderiam oferecer um bom retorno financeiro. “A gente só quer arrumar um emprego, às vezes, interrompe até o estudo pra trabalhar e ajudar na casa”, conta o fotógrafo.

Através da fotografia, Bruno ressignificou as perspectivas de vida e desenvolveu diversos trabalhos fotográficos, incluindo uma exposição que chamou a atenção da ex Presidenta Dilma Rousseff durante a inauguração do teleférico no Complexo do Alemão, em 2011, levando a uma oportunidade de emprego no Palácio Guanabara. Ele também trabalhou como fotógrafo no programa “Lar Doce Lar”, do Caldeirão do Huck, e em outros projetos.

Com o desejo de retribuir às pessoas do Complexo do Alemão as oportunidades que a fotografia proporcionou, Bruno fundou, em 2017, o projeto social “Olhar Complexo”, que não apenas inspirou o nome ao livro dele, mas também simboliza a dedicação em inspirar e estimular o desenvolvimento da favela através da fotografia.

O projeto oferece aulas práticas e teóricas de fotografia, além de incentivar a colaboração e o intercâmbio entre moradores locais e de outras favelas, promovendo assim o compartilhamento de conhecimento e experiências. “Eu tenho um sonho de um dia ter um núcleo de fotografia em várias favelas do Rio, estimular essa troca de olhares e troca de experiências[na fotografia], já que cada favela tem sua peculiaridade”, conclui Bruno Itan.

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