Todo domingo à noite dezenas de pessoas de várias favelas do Rio se encontram em uma roda cultural na Rocinha para rimar, trocar letras, versos, improvisos ou até mesmo poesias entre si. No meio dessas batalhas, um nome vem ganhando destaque nos últimos tempos, é o rapper Gabriel Oliveira de Albuquerque, o GabFlow, de 23 anos, morador da Rua Dois, na parte alta da Rocinha. 

Artista nato, começou a conquistar seu espaço na cena do rap carioca aos treze anos. Sua primeira roda de rimas e batalhas foi no Vidigal — favela vizinha à Rocinha — onde foi ganhando confiança para expandir novos horizontes e conquistar outros campeonatos. O artista acumula mais de 1 milhão de visualizações e 500 mil curtidas em apenas uma rede social de compartilhamento de vídeos. Em outros perfis, seus vídeos viralizam rapidamente com suas letras objetivas e abordagem segura a ponto de intimidar quem o desafia na batalha. 

“A vida na favela é muito difícil. Você precisa conciliar trabalho com casa, com alimentação, carreira e estudo. Tive muita oportunidade ruim na minha vida, o hip hop não me deixou ir por esse lado, foi a chave para não cair no erro. Vi na cena em si a oportunidade de evoluir como homem e como ser humano, através da minha arte e do que eu acredito. As rodas culturais são importantíssimas, elas que me apontaram uma nova perspectiva de vida, conheci muita gente e observei o quão capaz é o corpo favelado para qualquer coisa quando se está unido” explica Gabriel.  

GabFlow, nome artístico adotado pelo rapper, vem ganhando destaque, mas antes era conhecido como “Houston” o novo batismo aconteceu na Roda Cultural da Rocinha. “Eu era do surfe e na época tinha um surfista muito famoso que eu gostava, esse era o sobrenome dele, eu gostei e adotei. Mas nas rodas ninguém conseguia pronunciar certo. Então recebi um conselho de mudar, também nesse período o Gabigol [jogador do time do Flamengo] estava fazendo muito sucesso e eu tenho um flow [verso e cadência rítmica] maneiro, então juntei os dois e deu o meu nome GabFlow” afirma. 

O impacto dos projetos sociais, espaços de lazer e incentivo à cultura, segundo o artista, deve ser amplo dentro e fora da favela. O contato com projetos e ONGs que trabalham a cultura se torna uma ferramenta de desenvolvimento social e distância dos caminhos tortuosos da criminalidade presente nos morros cariocas. 

Carreira internacional

Recentemente Gabflow lançou música ao lado de Mc Sherlock e Akavicenti, ambos também moradores da Rocinha. A faixa intitulada “Na Vibe” conta sobre o que vivem e como é o cotidiano na favela. Amigos há muitos anos, eles aproveitaram a conexão para representar a nova geração do trap e do rap. Os dois buscam ser inspiração para as crianças e adolescentes das favelas enxergarem que também podem alcançar seus sonhos. 

A letra da música estava guardada desde 2019. Quando surgiu a oportunidade de gravá-la, o jovem não pensou duas vezes. “Quando chegou o convite de gravar na Soul logo pensei nela e chamei os meninos, que também são da Sony Music, para gravar os versos. Temos que mostrar o talento que existe nas favelas. Isso tem que estar em evidência, e procuro trabalhar muito nas minhas letras sobre isso, porque na favela tem muito talento.” comenta Gabflow sobre a composição de ‘Na Vibe’, seu mais recente lançamento nas plataformas. 

Rapper é conhecido nas rodas de rimas como Gabflow. Fotos: Osvaldo Lopes

A gravação é uma parceria da Soul Music com a Sony Music Brasil, que está presente em mais de 40 países e é uma companhia global de música com vasta gama de artistas locais e grandes estrelas internacionais. A empresa possui grandioso catálogo que inclui algumas das gravações mais importantes da história como Michael Jackson, Beyoncé, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Marina Sena, Ludmilla, Liniker, Marisa Monte, Maríilia Mendonça entre outros. 

Apesar disso, nem sempre a vida do artista é apenas de boas propostas e sucesso. No final de 2019, Gabriel Oliveira enfrentou uma situação financeira desagradável enquanto morava com o pai. Nesse momento, ele considerou desistir da carreira. Foi então que percebeu uma oportunidade na venda de doces gourmet para garantir uma fonte de renda estável e proporcionar uma estabilidade para sua família, composta por seu pai, namorada e um filho que estava prestes a nascer. 

“Abri mão de muita coisa, tive que auxiliar no aluguel, alimentação e outras coisas. Até conseguir comprar o kitnet que tenho hoje, ralei demais, ainda não estou no padrão que desejo, mas o pior já passou e consegui retomar a carreira de novo.”. 

O rapper continua participando assiduamente de muitas rodas de rima pela cidade, sempre presente para duelar com a nova geração e testar suas habilidades. Com planos bem definidos, o artista visa continuar dedicando-se à sua carreira como cantor de rap, abrindo caminho para uma trajetória ascendente na indústria musical. Sua determinação e paixão pelo rap prometem impulsionar seu sucesso ainda mais.

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